Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          O PAC e o compromisso das agências de comunicação

          O Governo Lula acaba de anunciar, com grande pompa, o seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com o objetivo, segundo ele, de estimular os negócios e, em consequência, aumentar o nível de emprego, garantir a sustentabilidade e a governabilidade. Na prática, todos sabemos que o PAC é resultado não apenas de uma política pública bem engendrada mas de um lobby formidável que tem como propósito maior evitar problemas sérios num futuro próximo (como o apagão energético, a crise flagrante da infraestrutura (portuária, ferroviária, rodoviária) e outros também contundentes, como a crise tributária, previdenciária e política.

          Para saber quem foram os grandes vencedores, basta perceber quem anda rindo a toa. Em geral, são empresários de determinados setores que vêem com o PAC a possibilidade de aumentar os seus negócios. Pouco se fala em educação (essa sim fundamental para um crescimento sustentável e socialmente justo), em saúde (o surto dramático de dengue no Mato Grosso e a calamidade dos hospitais públicos exibe a verdadeira cara do nosso desenvolvimento) e há um risco imenso de agressão ao meio ambiente (também apenas marginal na montagem do PAC).

          A nossa preocupação, enquanto comunicadores, deve ser a de debater qual o nosso papel nesse momento, já que certamente seremos convidados ou envolvidos nesse processo.

          As primeiras leituras não têm sido favoráveis. Setores da chamada indústria da comunicação têm evidenciado apenas o interesse em aumentar os negócios e não colocam outros parâmetros para análise que não seja a saúde dos seus cofres.

          Vejamos apenas dois casos.

          1) Grandes agências de publicidade estão festejando a medida porque acreditam que, psicologicamente, este estímulo ao crescimento acabará seduzindo os anunciantes que deverão investir mais. Não se notou, até agora, qualquer preocupação com o impacto desse possível crescimento, como se a função das agências fosse apenas promover o consumo a qualquer custo. O importante, devem pensar elas, é que os anunciantes gastem dinheiro e que a gente seja favorecido por essa medida.

          2) Ainda muitas agências de propaganda estão preocupadas porque existe uma possibilidade de os governos (estaduais ou federal) reduzirem as verbas de publicidade, o que certamente as penalizará. O interessante é que algumas vezes se somam a esta choraminga veículos de comunicação, assustados com a possibilidade de perderem receita , se for reduzida a publicidade oficial. Santa hipocrisia e cinismo! Em geral, são esses mesmos veículos que denunciam a farra governamental com gastos em propaganda e que andaram botando a boca no trombone no episódio (que não se encerrou) do valerioduto.

          A lógica é: as operadoras de celulares querem duplicar o número de aparelhos em mãos dos brasileiros? Ótimo, vão investir em propaganda e os nossos bolsos continuarão cheios. As empresas de papel e celulose, as usinas de álcool, as empresas agroquímicas, as mineradoras vão instalar novas plantas industrias? Excelente, porque teremos serviço por um bom tempo.

          Preocupação com o descarte das baterias dos celulares? Nenhuma. Preocupação com o impacto ambiental destas plantas industriais? Nenhuma. Preocupação com o consumo desenfreado? Nenhuma.

          Os comunicadores sérios, as agências sérias deveriam incorporar novas preocupações. Veículos responsáveis deveriam estar preocupados com o dinheiro público que é drenado para atender interesses políticos e pessoais.

          Há um discurso e uma realidade que não estão em sintonia. Há uma hipocrisia empresarial que não deve merecer nossa adesão. Estamos atravessando uma fase de descompromisso ético. Agora, a moda é sujar tudo e plantar árvores como penitência. Até a Abril que pouco tem se preocupado com o meio ambiente (a revista Exame é uma apologia aos negócios ambientalmente não sustentáveis!) entrou nessa para "limpar a imagem".

          Como diz o caboclo, "Deus está vendo" e não será enganado facilmente.

          É preciso não apenas debater formas de estimular o crescimento, mas sobretudo perguntar que crescimento interessa ao país? Não há dúvida que o aumento do consumo, de qualquer consumo, nos empurra para trás. Mas, novamente, muita gente, muita agência, muitos veículos vão continuar ganhando dinheiro. Para eles, é, no fundo, a única coisa que interessa.

 

 
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