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Ecoagência, sustentabilidade e
militância
Juarez
Tosi é jornalista, editor da Ecoagência, é
uma referência no Jornalismo Ambiental brasileiro. Nesta
entrevista, ele relata a experiência de uma das mais importantes
agências de notícias ambientais da América
Latina, avalia o jornalismo ambiental que se pratica no País
e discorre sobre temas relevantes e controversos, como a sustentabilidade
das mídias ambientais e o caráter militante do jornalismo
ambiental. Vale a pena conferir.
Revista: Resgate, ainda que
brevemente, a história da Ecoagência, descrevendo
a sua origem, os seus objetivos.
Juarez Tosi: A EcoAgência
surgiu da necessidade de difundirmos as notícias ambientais.
Desde a fundação do Núcleo de Ecojornalistas
do Rio Grande do Sul (NEJ/RS), em 1990, discutíamos a necessidade
de concentrarmos em um veículo as notícias e pautas
da área ambiental e, principalmente, abrirmos espaços
para as Organizações Não Governamentais (ONGs),
constantemente discriminadas pelas mídias comerciais. Em
janeiro de 1993, durante o Fórum Social Mundial, em Porto
Alegre, sentimos que era o momento propício de criarmos
esse veículo. A ONG Pagea - Associação Ambientalista
Internacional possuía um site chamado Agir Azul na Rede.
NEJ/RS e Pangea se associaram, criando a EcoAgência Solidária
de Notícias Ambientais. No início, o objetivo era
cobrirmos as pautas ambientais do Fórum Social Mundial.
Juntamos um grupo de quase vinte profissionais de vários
Estados, que estavam em Porto Alegre participando do FSM. A experiência
foi tão boa que o NEJ/RS resolveu manter e ampliar o site.
Desde então, começamos a cobrir outros eventos,
inclusive fora do país. É importante destacar que
todo nosso trabalho é voluntário. Em 2003 conseguimos,
através de um patrocínio, recursos para remodelar
nosso portal. Ficou com um layout mais profissional e atraente.
Com isso, aumentamos significativamente no número de acessos.
Consideramos hoje que a EcoAgência
é uma referência em termos de jornalismo ambiental.
Ela está alicerçada por outros sites, como o do
Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (www.nejrs.org.br),
do Jornalismo Ambiental (www.jornalismoambiental.jor.br) e do
Agir Azul na Rede (www.agirazul.com.br). Em breve estaremos com
novo site no ar. Já temos o domínio do Sintonia
da Terra, um programa de que vai ao ar todas as sextas-feiras,
às 8h05min, pela Rádio da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, em uma parceria entre o NEJ/RS, EcoAgência
e UFRGS. O Sintonia da Terra pode ser escutado ao vivo pelo site
www.ufrgs.br/radio.
Revista: Quantas pessoas integram
a equipe? Como é o dia-a-dia da agência?
Juarez Tosi: Atualmente
temos um grupo de seis editores, dois fotógrafos, dez repórteres
colaboradores e cinco articulistas. Como todo o trabalho é
voluntário, as pessoas colaboram da melhor forma possível.
Não temos uma redação fixa. As bases, tantos
dos editores, como dos demais, são seus computadores. Os
editores atuam também como pauteiros, sugerindo assuntos
para os repórteres. Uma das nossas editoras, por exemplo,
trabalha em Alta Floresta, no Mato Grosso. Isso é facilitado
pelo fato de estarmos diariamente online pela rede mundial de
computadores.
Mas esperamos, para breve, termos
uma redação fixa. Firmamos recentemente uma parceria
com o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, que nos
cederá gratuitamente uma sala, com mesa e computador. Isso
facilitará ainda mais nosso trabalho.
Revista: A linha editorial
tem focos específicos de cobertura? Existem temas obrigatórios
ou prioritários?
Juarez Tosi: Não
temos temas obrigatórios. Uma das finalidades do NEJ/RS,
segundo seus estatutos, é "a mobilização
social para difundir em toda a sociedade informações
que permitam a compreensão sobre a interdependência
entre os seres vivos e a necessidade de um desenvolvimento ecologicamente
sustentável e socialmente justo para a preservação
da vida na terra". Por isso, não limitamos a cobertura
a temas específicos. Nosso grande tema é o meio
ambiente e tudo o que ele envolve. Somos contra os transgênicos,
pois não há provas que eles sejam inofensivos ao
ser humano e ao meio ambiente. Ao contrário, já
está sendo comprovado o aumento do uso do herbicida glifosato
na soja RoundUp Ready, prejuízos à fauna silvestre
e mesmo alergias, entre outros problemas, nos seres humanos. Somos
contra, também, as monoculturas de todos os tipos, pois
além de desalojar os pequenos produtores, destroem os solos
causando erosão.
Então, esse é o
nosso grande foco: a defesa intransigente do ambiente em que vivemos
e das populações locais.
Revista: O que garante, do ponto
de vista financeiro, a sustentabilidade da Ecoagência?
Juarez Tosi: Desde o surgimento
da EcoAgência, em janeiro de 2003, tem sido uma luta diária
manter o portal em funcionamento. No começo, os recursos
provinham somente do grupo que a mantinha funcionando, principalmente
dos colegas do NEJ/RS. Durante o ano de 2005, um convênio
com a Petrobrás ajudou a manutenção do trabalho.
Reformulamos o portal e conseguimos pagar a hospedagem. Este ano,
estamos renovando o contrato com a Petrobrás e buscando
outras parcerias.
Mas é um trabalho muito
difícil, pois temos alguns critérios que não
abrimos mão. Não aceitamos recursos financeiros
de indústrias prejudiciais à saúde e ao meio
ambiente, como fumageiras e de transgênicos.
Revista: Quais são os
principais desafios da agência? Quais os planos futuros?
O que está planejado para ser feito e ainda não
foi concretizado por algum motivo?
Juarez Tosi: O maior desafio
que enfrentamos é a profissionalização da
equipe. Como trabalho voluntário, entendemos que já
estamos fazendo bastante. Mas temos que avançar. E esse
avanço passa obrigatoriamente pela profissionalização
da equipe. Necessitamos, pelo menos, de uma pequena equipe de
repórteres de texto e fotográficos que tenha disponibilidade
para a cobertura de uma série de pautas da área
ambiental, as quais não temos, atualmente, fôlego
para cobrir. A partir disso, acreditamos que possamos dar salto
de qualificação no trabalho.
Hoje, a EcoAgência é
reconhecida nacionalmente. Recebemos diariamente dezenas de e-mails
de estudantes, profissionais de várias áreas e de
colegas jornalistas oferecendo-se para trabalhar e enviando currículos.
Mas não temos como atender, exatamente por essa limitação.
Entendo que há um grande
espaço para se trabalhar a cobertura ambiental no Brasil
e uma busca crescente por esse tipo de informação.
É o espaço que hoje vem sendo ocupado pelas mídias
ambientais. Temos que realizar trabalhos de parceria entre os
vários veículos existentes. Só assim todos
se fortalecem e, conseqüentemente, a cobertura ganhará
qualidade.
Revista: Como você avalia
o jornalismo ambiental brasileiro hoje? Seus principais problemas,
desafios e, se puder, compare o momento atual com a situação,
por exemplo, da década passada?
Juarez Tosi: Eu entendo
que nas duas últimas década houve um extraordinário
crescimento do jornalismo ambiental no Brasil. No meu ponto de
vista, o marco dessa mudança foi a Rio-92. Desde então,
os próprios veículos comerciais (é assim
que eu chamo a dita grande imprensa) sentiram que havia um filão
de venda e começaram a se preocupar em difundir esse tipo
de informação. Mesmo assim, continuava faltando
uma coisa que eu acho essencial nessa virada: a formação.
E o que aconteceu? Os repórteres, que antes lidavam com
assuntos como economia, política ou pautas gerais, passaram
a se preocupar também com os temas ambientais. Mas não
havia uma política editorial nesse sentido, o que gerava
uma descontinuidade no trabalho.
Então começaram
a ocupar esse espaço os veículos que denomino de
ideológicos, pois acima da questão comercial estão
as idéias. Só que havia, e ainda há, uma
restrição imensa. Sem recursos, esses veículos
baseiam-se em pequenas tiragens ou ocupam os espaços oferecidos
pela internet. Com isso, não conseguem chegar ao grande
público.
O resultado é que mesmo
com seu crescimento, o jornalismo ambiental ainda ocupa um espaço
muito restrito. Temos que achar formas de massificar, mas sempre
mantendo a qualidade, a informação ambiental. Há,
portanto, no meu ponto de vista, uma evolução grande
do jornalismo ambiental nas duas últimas décadas.
Mas o espaço de crescimento é maior ainda. E é
nosso dever achar formas para ocuparmos esse espaço.
Revista: Um problema comum para
as mídias ambientais é a sua própria sustentabilidade.
É possível compatibilizar a sustentabilidade com
a independência editorial tendo em vista o perfil dos anunciantes
tradicionais (a maioria com passivo ambiental formidável)?
Juarez Tosi: Esse é
um dos assuntos que muito tem nos preocupado. Como manter a independência
editorial e garantir a sustentabilidade da publicação?
Temos alguns critérios que ainda considero incipientes.
Como já disse anteriormente, não aceitamos anúncios
de empresas que consideramos demasiadamente agressivas à
saúde e ao ambiente em que vivemos. É o caso das
fumageiras, produtoras de agrotóxicos ou transgênicos.
Mas como lidar com outras empresas, que de uma forma ou outra,
também agridem o meio ambiente? Se fossemos demasiadamente
rígidos não sobraria praticamente nenhuma alternativa.
Os bancos, que hoje participam de projetos ambientais, por exemplo,
são grandes conglomerados. Por trás há empresas
poluidoras, como empreiteiras. A Petrobrás, que já
nos financiou e financia várias ONGs, é alvo de
muitas críticas. No Equador e na Bolívia, as comunidades
indígenas protestam contra a Petrobrás e tentam
expulsa-la de seus territórios. Aqui no Brasil, quantos
derramamentos de óleo ocorreram nos últimos anos,
contaminando nossos rios?
Mas se dependermos apenas das
empresas que não causem nenhum tipo de impacto ao meio
ambiente, quem nos financiaria? Um restaurante vegetariano, um
pequeno agricultor de produtos orgânicos?
Portanto, acho essa questão
muito emblemática. Temos que continuar buscando alternativas,
enquanto aproveitamos algumas oportunidades que nos são
colocadas.
Só que não podemos
confundir o patrocínio com adesão à política
da empresa. Quando fechamos um patrocínio comercial, sempre
deixamos bem claro que não nos calaremos diante de uma
possível agressão que essa empresa venha cometer
ao meio ambiente.
Revista: A seu ver, as mídias
ambientais deveriam veicular anúncios de empresas quando
estes de maneira contundente afrontam a verdade? Os editoriais
deveriam recusar estes anúncios ou eles fazem parte do
negócio?
Juarez Tosi: Entendo que
a ética está acima de tudo. Prefiro deixar de fazer
jornalismo, a ter que afrontar a ética. E faltar com a
verdade é faltar com a ética. Por isso, entendo
que devemos deixar de veicular anúncios de empresas que
afrontam a verdade. De certa forma já fazemos isso na EcoAgência.
O fumo, no nosso entender, é um crime contra a saúde
humana e a saúde do planeta. Em função disso
não aceitamos anúncios de empresas produtoras ou
comercializadoras desse tipo de produto. Temos que respeitar as
futuras gerações e dar o exemplo a partir de agora.
Aqui no Rio Grande do Sul há
ambientalistas que procuram conscientizar os produtores de tabaco
a não usarem agrotóxicos em suas culturas. Sou totalmente
contra isso. Acho que devemos incentivar os produtores de tabaco
a mudarem a cultura. Substituir essa cultura por algo que sirva
para alimentar as famílias e não destruí-las.
Revista: O jornalismo ambiental
deve ser militante? Investigativo?
Juarez Tosi: Acho muito
difícil, na atualidade, desvincular o jornalismo da atividade
ambiental. Em geral, jornalismo é jornalismo e militantismo
é militantismo. Mas, se sou a favor da vida tenho que ser,
além de jornalista um bom militante da causa ambiental.
Considero incompatível ser um bom jornalista e não
se engajar na campanha pela qualidade de vida. Por exemplo, temos,
como jornalistas, que mostrar que os metais pesados fazem mal
para a saúde, que eles podem provocar câncer. E o
uso absurdo, como ocorre hoje, de plástico, causa sérios
problemas hormonais. Quem sabe hoje que as substâncias estrogênicas
(que imitam o efeito do estrógeno, que é o hormônio
feminino) afetam fortemente a reprodução e a saúde,
tanto de animais como de seres humanos? E que os detergentes,
usados abundantemente nos lares e todas as embalagens plásticas
possuem essas substâncias? Como jornalistas, temos o dever
ético de mostrar isso para as pessoas. Então, de
certa forma, acabamos sendo, além de jornalistas, também
militantes que procuram conscientizar as pessoas sobre os riscos
que correm no dia-a-dia.
Revista: No RS, são
comuns as pressões de governos, empresas sobre as mídias
que tratam de temas ambientais? Há exemplos a destacar?
Juarez Tosi: Não
tenho notado esse tipo de pressão. Por sermos uma mídia
pequena e não comercial, não tenho notado esse tipo
de pressão. Trabalhei durante dez anos em mídias
comerciais, sendo boa parte na cobertura ambiental. Também
não sofri diretamente esse tipo de pressão. Mas
sabemos que as pressões dos governos e empresas ocorrem
de outra forma. Por possuírem maior poder econômico
eles compram generosos espaços dos veículos de grande
comercialização para mostrarem apenas o que lhes
interessa. E isso não é só no Rio Grande
do Sul, mas em todos os lugares.
Pegue um jornal de São
Paulo, por exemplo, e observe com atenção o anúncio
de determinado empreendimento imobiliário. Eles têm
dado prioridade em mostrar áreas verdes e de lazer. Mas
se olharmos com atenção, veremos que muitas vezes
o que ocorre é propaganda enganosa. Já vi anúncios
mostrando a preservação de espécies que era
obrigação deles, por estarem dentro da mata atlântica,
por exemplo. Portanto, é mais fácil para governos
e empresas comprarem as mídias comerciais do que se desgastarem
com pressões sobre as mídias ambientais.
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