Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
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           Ecoagência, sustentabilidade e militância

Juarez Tosi é jornalista, editor da Ecoagência, é uma referência no Jornalismo Ambiental brasileiro. Nesta entrevista, ele relata a experiência de uma das mais importantes agências de notícias ambientais da América Latina, avalia o jornalismo ambiental que se pratica no País e discorre sobre temas relevantes e controversos, como a sustentabilidade das mídias ambientais e o caráter militante do jornalismo ambiental. Vale a pena conferir.

Revista: Resgate, ainda que brevemente, a história da Ecoagência, descrevendo a sua origem, os seus objetivos.

Juarez Tosi: A EcoAgência surgiu da necessidade de difundirmos as notícias ambientais. Desde a fundação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ/RS), em 1990, discutíamos a necessidade de concentrarmos em um veículo as notícias e pautas da área ambiental e, principalmente, abrirmos espaços para as Organizações Não Governamentais (ONGs), constantemente discriminadas pelas mídias comerciais. Em janeiro de 1993, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, sentimos que era o momento propício de criarmos esse veículo. A ONG Pagea - Associação Ambientalista Internacional possuía um site chamado Agir Azul na Rede. NEJ/RS e Pangea se associaram, criando a EcoAgência Solidária de Notícias Ambientais. No início, o objetivo era cobrirmos as pautas ambientais do Fórum Social Mundial. Juntamos um grupo de quase vinte profissionais de vários Estados, que estavam em Porto Alegre participando do FSM. A experiência foi tão boa que o NEJ/RS resolveu manter e ampliar o site. Desde então, começamos a cobrir outros eventos, inclusive fora do país. É importante destacar que todo nosso trabalho é voluntário. Em 2003 conseguimos, através de um patrocínio, recursos para remodelar nosso portal. Ficou com um layout mais profissional e atraente. Com isso, aumentamos significativamente no número de acessos.

Consideramos hoje que a EcoAgência é uma referência em termos de jornalismo ambiental. Ela está alicerçada por outros sites, como o do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (www.nejrs.org.br), do Jornalismo Ambiental (www.jornalismoambiental.jor.br) e do Agir Azul na Rede (www.agirazul.com.br). Em breve estaremos com novo site no ar. Já temos o domínio do Sintonia da Terra, um programa de que vai ao ar todas as sextas-feiras, às 8h05min, pela Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em uma parceria entre o NEJ/RS, EcoAgência e UFRGS. O Sintonia da Terra pode ser escutado ao vivo pelo site www.ufrgs.br/radio.

Revista: Quantas pessoas integram a equipe? Como é o dia-a-dia da agência?

Juarez Tosi: Atualmente temos um grupo de seis editores, dois fotógrafos, dez repórteres colaboradores e cinco articulistas. Como todo o trabalho é voluntário, as pessoas colaboram da melhor forma possível. Não temos uma redação fixa. As bases, tantos dos editores, como dos demais, são seus computadores. Os editores atuam também como pauteiros, sugerindo assuntos para os repórteres. Uma das nossas editoras, por exemplo, trabalha em Alta Floresta, no Mato Grosso. Isso é facilitado pelo fato de estarmos diariamente online pela rede mundial de computadores.

Mas esperamos, para breve, termos uma redação fixa. Firmamos recentemente uma parceria com o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, que nos cederá gratuitamente uma sala, com mesa e computador. Isso facilitará ainda mais nosso trabalho.

Revista: A linha editorial tem focos específicos de cobertura? Existem temas obrigatórios ou prioritários?

Juarez Tosi: Não temos temas obrigatórios. Uma das finalidades do NEJ/RS, segundo seus estatutos, é "a mobilização social para difundir em toda a sociedade informações que permitam a compreensão sobre a interdependência entre os seres vivos e a necessidade de um desenvolvimento ecologicamente sustentável e socialmente justo para a preservação da vida na terra". Por isso, não limitamos a cobertura a temas específicos. Nosso grande tema é o meio ambiente e tudo o que ele envolve. Somos contra os transgênicos, pois não há provas que eles sejam inofensivos ao ser humano e ao meio ambiente. Ao contrário, já está sendo comprovado o aumento do uso do herbicida glifosato na soja RoundUp Ready, prejuízos à fauna silvestre e mesmo alergias, entre outros problemas, nos seres humanos. Somos contra, também, as monoculturas de todos os tipos, pois além de desalojar os pequenos produtores, destroem os solos causando erosão.

Então, esse é o nosso grande foco: a defesa intransigente do ambiente em que vivemos e das populações locais.

Revista: O que garante, do ponto de vista financeiro, a sustentabilidade da Ecoagência?

Juarez Tosi: Desde o surgimento da EcoAgência, em janeiro de 2003, tem sido uma luta diária manter o portal em funcionamento. No começo, os recursos provinham somente do grupo que a mantinha funcionando, principalmente dos colegas do NEJ/RS. Durante o ano de 2005, um convênio com a Petrobrás ajudou a manutenção do trabalho. Reformulamos o portal e conseguimos pagar a hospedagem. Este ano, estamos renovando o contrato com a Petrobrás e buscando outras parcerias.

Mas é um trabalho muito difícil, pois temos alguns critérios que não abrimos mão. Não aceitamos recursos financeiros de indústrias prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, como fumageiras e de transgênicos.

Revista: Quais são os principais desafios da agência? Quais os planos futuros? O que está planejado para ser feito e ainda não foi concretizado por algum motivo?

Juarez Tosi: O maior desafio que enfrentamos é a profissionalização da equipe. Como trabalho voluntário, entendemos que já estamos fazendo bastante. Mas temos que avançar. E esse avanço passa obrigatoriamente pela profissionalização da equipe. Necessitamos, pelo menos, de uma pequena equipe de repórteres de texto e fotográficos que tenha disponibilidade para a cobertura de uma série de pautas da área ambiental, as quais não temos, atualmente, fôlego para cobrir. A partir disso, acreditamos que possamos dar salto de qualificação no trabalho.

Hoje, a EcoAgência é reconhecida nacionalmente. Recebemos diariamente dezenas de e-mails de estudantes, profissionais de várias áreas e de colegas jornalistas oferecendo-se para trabalhar e enviando currículos. Mas não temos como atender, exatamente por essa limitação.

Entendo que há um grande espaço para se trabalhar a cobertura ambiental no Brasil e uma busca crescente por esse tipo de informação. É o espaço que hoje vem sendo ocupado pelas mídias ambientais. Temos que realizar trabalhos de parceria entre os vários veículos existentes. Só assim todos se fortalecem e, conseqüentemente, a cobertura ganhará qualidade.

Revista: Como você avalia o jornalismo ambiental brasileiro hoje? Seus principais problemas, desafios e, se puder, compare o momento atual com a situação, por exemplo, da década passada?

Juarez Tosi: Eu entendo que nas duas últimas década houve um extraordinário crescimento do jornalismo ambiental no Brasil. No meu ponto de vista, o marco dessa mudança foi a Rio-92. Desde então, os próprios veículos comerciais (é assim que eu chamo a dita grande imprensa) sentiram que havia um filão de venda e começaram a se preocupar em difundir esse tipo de informação. Mesmo assim, continuava faltando uma coisa que eu acho essencial nessa virada: a formação. E o que aconteceu? Os repórteres, que antes lidavam com assuntos como economia, política ou pautas gerais, passaram a se preocupar também com os temas ambientais. Mas não havia uma política editorial nesse sentido, o que gerava uma descontinuidade no trabalho.

Então começaram a ocupar esse espaço os veículos que denomino de ideológicos, pois acima da questão comercial estão as idéias. Só que havia, e ainda há, uma restrição imensa. Sem recursos, esses veículos baseiam-se em pequenas tiragens ou ocupam os espaços oferecidos pela internet. Com isso, não conseguem chegar ao grande público.

O resultado é que mesmo com seu crescimento, o jornalismo ambiental ainda ocupa um espaço muito restrito. Temos que achar formas de massificar, mas sempre mantendo a qualidade, a informação ambiental. Há, portanto, no meu ponto de vista, uma evolução grande do jornalismo ambiental nas duas últimas décadas. Mas o espaço de crescimento é maior ainda. E é nosso dever achar formas para ocuparmos esse espaço.

Revista: Um problema comum para as mídias ambientais é a sua própria sustentabilidade. É possível compatibilizar a sustentabilidade com a independência editorial tendo em vista o perfil dos anunciantes tradicionais (a maioria com passivo ambiental formidável)?

Juarez Tosi: Esse é um dos assuntos que muito tem nos preocupado. Como manter a independência editorial e garantir a sustentabilidade da publicação? Temos alguns critérios que ainda considero incipientes. Como já disse anteriormente, não aceitamos anúncios de empresas que consideramos demasiadamente agressivas à saúde e ao ambiente em que vivemos. É o caso das fumageiras, produtoras de agrotóxicos ou transgênicos. Mas como lidar com outras empresas, que de uma forma ou outra, também agridem o meio ambiente? Se fossemos demasiadamente rígidos não sobraria praticamente nenhuma alternativa. Os bancos, que hoje participam de projetos ambientais, por exemplo, são grandes conglomerados. Por trás há empresas poluidoras, como empreiteiras. A Petrobrás, que já nos financiou e financia várias ONGs, é alvo de muitas críticas. No Equador e na Bolívia, as comunidades indígenas protestam contra a Petrobrás e tentam expulsa-la de seus territórios. Aqui no Brasil, quantos derramamentos de óleo ocorreram nos últimos anos, contaminando nossos rios?

Mas se dependermos apenas das empresas que não causem nenhum tipo de impacto ao meio ambiente, quem nos financiaria? Um restaurante vegetariano, um pequeno agricultor de produtos orgânicos?

Portanto, acho essa questão muito emblemática. Temos que continuar buscando alternativas, enquanto aproveitamos algumas oportunidades que nos são colocadas.

Só que não podemos confundir o patrocínio com adesão à política da empresa. Quando fechamos um patrocínio comercial, sempre deixamos bem claro que não nos calaremos diante de uma possível agressão que essa empresa venha cometer ao meio ambiente.

Revista: A seu ver, as mídias ambientais deveriam veicular anúncios de empresas quando estes de maneira contundente afrontam a verdade? Os editoriais deveriam recusar estes anúncios ou eles fazem parte do negócio?

Juarez Tosi: Entendo que a ética está acima de tudo. Prefiro deixar de fazer jornalismo, a ter que afrontar a ética. E faltar com a verdade é faltar com a ética. Por isso, entendo que devemos deixar de veicular anúncios de empresas que afrontam a verdade. De certa forma já fazemos isso na EcoAgência. O fumo, no nosso entender, é um crime contra a saúde humana e a saúde do planeta. Em função disso não aceitamos anúncios de empresas produtoras ou comercializadoras desse tipo de produto. Temos que respeitar as futuras gerações e dar o exemplo a partir de agora.

Aqui no Rio Grande do Sul há ambientalistas que procuram conscientizar os produtores de tabaco a não usarem agrotóxicos em suas culturas. Sou totalmente contra isso. Acho que devemos incentivar os produtores de tabaco a mudarem a cultura. Substituir essa cultura por algo que sirva para alimentar as famílias e não destruí-las.

Revista: O jornalismo ambiental deve ser militante? Investigativo?

Juarez Tosi: Acho muito difícil, na atualidade, desvincular o jornalismo da atividade ambiental. Em geral, jornalismo é jornalismo e militantismo é militantismo. Mas, se sou a favor da vida tenho que ser, além de jornalista um bom militante da causa ambiental. Considero incompatível ser um bom jornalista e não se engajar na campanha pela qualidade de vida. Por exemplo, temos, como jornalistas, que mostrar que os metais pesados fazem mal para a saúde, que eles podem provocar câncer. E o uso absurdo, como ocorre hoje, de plástico, causa sérios problemas hormonais. Quem sabe hoje que as substâncias estrogênicas (que imitam o efeito do estrógeno, que é o hormônio feminino) afetam fortemente a reprodução e a saúde, tanto de animais como de seres humanos? E que os detergentes, usados abundantemente nos lares e todas as embalagens plásticas possuem essas substâncias? Como jornalistas, temos o dever ético de mostrar isso para as pessoas. Então, de certa forma, acabamos sendo, além de jornalistas, também militantes que procuram conscientizar as pessoas sobre os riscos que correm no dia-a-dia.

Revista: No RS, são comuns as pressões de governos, empresas sobre as mídias que tratam de temas ambientais? Há exemplos a destacar?

Juarez Tosi: Não tenho notado esse tipo de pressão. Por sermos uma mídia pequena e não comercial, não tenho notado esse tipo de pressão. Trabalhei durante dez anos em mídias comerciais, sendo boa parte na cobertura ambiental. Também não sofri diretamente esse tipo de pressão. Mas sabemos que as pressões dos governos e empresas ocorrem de outra forma. Por possuírem maior poder econômico eles compram generosos espaços dos veículos de grande comercialização para mostrarem apenas o que lhes interessa. E isso não é só no Rio Grande do Sul, mas em todos os lugares.

Pegue um jornal de São Paulo, por exemplo, e observe com atenção o anúncio de determinado empreendimento imobiliário. Eles têm dado prioridade em mostrar áreas verdes e de lazer. Mas se olharmos com atenção, veremos que muitas vezes o que ocorre é propaganda enganosa. Já vi anúncios mostrando a preservação de espécies que era obrigação deles, por estarem dentro da mata atlântica, por exemplo. Portanto, é mais fácil para governos e empresas comprarem as mídias comerciais do que se desgastarem com pressões sobre as mídias ambientais.

 

 
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