Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          A visão arrogante da comunicação agrotóxica

          Muitos representantes da indústria agroquímica, em todo o mundo, tem se caracterizado pela tentativa recorrente de fazer calar as vozes divergentes, buscando impedir que aqueles que se opõem a seus interesses possam manifestar-se livremente. Para tanto, lançam mão de ações e estratégias diversas, como o financiamento das mídias, via campanhas publicitárias; processos ou ameças de processos contra jornalistas e veículos e uma ação agressiva junto aos veículos e profissionais de imprensa por meio de agências de comunicação/RP e assessorias de imprensa.

          Como se pode imaginar, numa sociedade globalizada, conectada e que valoriza os aspectos ambientais, esta postura intimidatória não tem surtido efeito, o que pode ser comprovado facilmente. O número de mídias ambientais tem crescido e as referências desfavoráveis a muitas empresas do setor se contam aos milhares na Web. As denúncias, portanto, apesar do esforço formidável para sufocá-las, se repetem todos os dias nos grupos de discussão, nos sites, nas colunas voltadas às questões ambientais e mesmo nos espaços habituais de divulgação da mídia tradicional (jornais, revistas, rádio e televisão). Agrotóxico mata e esta é uma notícia triste.

          Qualquer pessoa poderá constatar este fato facilmente, bastando colocar na caixa de busca do Google, por exemplo, o nome de uma de suas principais representantes seguida pela palavra problemas. Coloque "problems" no lugar de problemas, se quiser receber ainda um número maior de respostas ou links (Tente no Google, por exemplo, verificar o que retorna quando escreve na caixa de busca "Monsanto problems", "Bayer problems" , "Syngenta problmes" e assim por diante"). Dá para ficar horrorizado tantas as denúncias e tantos os abusos cometidos em todo o planeta, que vão de suborno a pressões de toda ordem. Agente laranja pode ser também mais uma palavra chave para recuperar os horrores cometidos por um de seus produtos na Guerra do Vietnã.

          Mais recentemente, inclusive no Brasil, estes representantes da indústria agroquímica tem buscado sufocar o debate sobre a ação nociva dos agrotóxicos, com a tentativa de desqualificar as opiniões contrárias aos seus interesses . Valem-se, repetida e tediosamente, da expressão "ambientalistas ideológicos" ou expressões equivalentes para etiquetar os autores de textos, reportagens e opiniões que denunciam os prejuízos causados pelos agrotóxicos ao meio ambiente e à saúde humana ou animal.

          Segundo estas empresas (e isso se aplica também para suas entidades), os agrotóxicos têm a ver com a sustentabilidade da agricultura, são absolutamente inofensivos para a saúde , contribuem para matar a fome do planeta e por aí vai, numa cantilena que chega a ser ridícula em virtude das provas contrárias, produzidas por entidades de prestígio na área ambiental, da saúde e da pesquisa agropecuária (Embrapa, Fiocruz etc).

          O eufemismo "defesa vegetal" não tem conseguido impedir que jornalistas, ambientalistas, profissionais de saúde, agrônomos, produtores rurais conscientes e representantes da sociedade civil em geral concluam ( o que está na cara!) que agrotóxico (defensivo agrícola é uma hipocrisia, uma farsa linguística e conceitual) é veneno, não remédio. Há inclusive um excelente texto sobre agrotóxicos, com farto material de pesquisadores da Fiocruz, com este título.

          Com a complacência e cumplicidade de autoridades ( governantes e inclusive professores e pesquisadores a serviço do capital privado), não tem sido possível barrar a escalada da indústria agroquímica e a ampliação dos seus privilégios e monopólios, mas , em nome da liberdade de expressão e dos interesses da sociedade, será sempre importante resistir a este processo de intimidamento.

          É fundamental reforçar a verdade dos fatos e ela é insofismável: agrotóxico é veneno, mata , causa doenças e penaliza o meio ambiente. Quem tiver dúvida, consulte o site da ANVISA sobre as estatísticas de mortes por agrotóxicos ou sobre contaminação de alimentos em geral por resíduos tóxicos. Essa história de "remedinho para planta" faz parte do cinismo condenável de parcela significativa desta indústria e de seus parceiros. Que os jornalistas e veículos comprometidos com a verdade (o meio ambiente, a agricultura e a saúde) não se esqueçam disso. Mais atenção aos releases que chegam destas fontes: é preciso enxergar além da notícia. Desconfie deles, investigue a origem e a qualidade das informações . Não se sinta seduzido por coletivas bem organizadas ou por prêmios ambientais patrocinados por empresas da área. Converse com fontes independentes. De uma vez por todas, é preciso dar um basta a esta comunicação agrotóxica. Ela está intoxicando o jornalismo brasileiro.

          Infelizmente, a qualidade não acompanha, necessariamente, a quantidade e, por isso, há um desequilíbrio imenso entre os bons cursos (que existem tanto em universidades públicas como privadas) e aqueles que só se justificam pela exigência do diploma para o exercício da profissão e pela ânsia de lucro de empresários inescrupulosos.

          Da mesma forma, a existência de duas centenas de cursos não significa que conteúdos, saberes e práticas fundamentais estejam sendo contemplados, como é o caso do meio ambiente e do agronegócio, praticamente esquecidos no ensino do Jornalismo em nosso País.

          Embora o interesse por estas áreas tenha crescido consideravelmente nos últimos anos, em função seja da importância do agronegócio para a economia brasileira, seja do impacto gerado pelo "progresso" e consumo acelerado ao meio ambiente, a Universidade, de maneira geral, as ignora.

          Poucas são as disciplinas (obrigatórias ou optativas) que se dedicam a apresentar os conceitos, os temas principais e, sobretudo, a discutir criticamente a cobertura da mídia associada ao agronegócio e ao meio ambiente. Um número menor ainda permite aos alunos desenvolver experiências concretas de produção de matérias nestas áreas.

          Felizmente, temos algumas iniciativas pioneiras e bem sucedidas, como as apresentadas nesta edição (Vide o menu Entrevista, que traz o depoimento dos professores André Trigueiro e Ilza Girardi, respectivamente, sobre as experiências da PUC/RJ e da UFRS). A Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais também está atenta para a questão e a tem tratado em seu grupo de discussão. O Congresso de Jornalismo Ambiental, realizado em Santos, este ano, também lhe dedicou um espaço importante. Já há ofertas, ainda que reduzidas, de cursos a distância que contemplam o Jornalismo Ambiental. Certamente, a situação é muito menos favorável para o Jornalismo em Agribusiness do que para o Jornalismo Ambiental, dada a mobilização dos profissionais que atuam nesta área.

          Mas é preciso fazer mais e andar mais depressa. Urge estudar a proposta de um programa básico (que não impeça, evidentemente, o estudo e a pesquisa de questões locais), ampliar a literatura específica, criar espaços plurais de discussão e, sobretudo, sensibilizar coordenadores dos cursos de Jornalismo para que introduzam disciplinas ou cursos de extensão. Não é utópico imaginar a possibilidade em futuro próximo de cursos de especialização ou mesmo de linhas de pesquisa em programas de Pós-Graduação, já que inúmeras dissertações e teses têm tido a comunicação e meio ambiente ou a comunicação e o agronegócio como objeto de estudo.

          É preciso fazer circular rápida e amplamente as informações sobre as experiências já em curso, organizar banco de fontes e de textos básicos, particularmente on line, mobilizar os sindicatos e as associações da área.

          A qualificação da cobertura do meio ambiente e do agronegócio depende da boa formação universitária e acadêmicos e jornalistas (muitos acumulam hoje esta dupla condição) comprometidos com a imprensa crítica e competente podem contribuir para que ela seja efetiva.

          Está na hora de darmos um salto qualitativo no jornalismo ambiental e do agronegócio.

 

 
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