|

A
visão arrogante da comunicação agrotóxica
Muitos
representantes da indústria agroquímica, em todo
o mundo, tem se caracterizado pela tentativa recorrente de fazer
calar as vozes divergentes, buscando impedir que aqueles que se
opõem a seus interesses possam manifestar-se livremente.
Para tanto, lançam mão de ações e
estratégias diversas, como o financiamento das mídias,
via campanhas publicitárias; processos ou ameças
de processos contra jornalistas e veículos e uma ação
agressiva junto aos veículos e profissionais de imprensa
por meio de agências de comunicação/RP e assessorias
de imprensa.
Como
se pode imaginar, numa sociedade globalizada, conectada e que
valoriza os aspectos ambientais, esta postura intimidatória
não tem surtido efeito, o que pode ser comprovado facilmente.
O número de mídias ambientais tem crescido e as
referências desfavoráveis a muitas empresas do setor
se contam aos milhares na Web. As denúncias, portanto,
apesar do esforço formidável para sufocá-las,
se repetem todos os dias nos grupos de discussão, nos sites,
nas colunas voltadas às questões ambientais e mesmo
nos espaços habituais de divulgação da mídia
tradicional (jornais, revistas, rádio e televisão).
Agrotóxico mata e esta é uma notícia triste.
Qualquer
pessoa poderá constatar este fato facilmente, bastando
colocar na caixa de busca do Google, por exemplo, o nome de uma
de suas principais representantes seguida pela palavra problemas.
Coloque "problems" no lugar de problemas, se quiser
receber ainda um número maior de respostas ou links (Tente
no Google, por exemplo, verificar o que retorna quando escreve
na caixa de busca "Monsanto problems", "Bayer problems"
, "Syngenta problmes" e assim por diante"). Dá
para ficar horrorizado tantas as denúncias e tantos os
abusos cometidos em todo o planeta, que vão de suborno
a pressões de toda ordem. Agente laranja pode ser também
mais uma palavra chave para recuperar os horrores cometidos por
um de seus produtos na Guerra do Vietnã.
Mais
recentemente, inclusive no Brasil, estes representantes da indústria
agroquímica tem buscado sufocar o debate sobre a ação
nociva dos agrotóxicos, com a tentativa de desqualificar
as opiniões contrárias aos seus interesses . Valem-se,
repetida e tediosamente, da expressão "ambientalistas
ideológicos" ou expressões equivalentes para
etiquetar os autores de textos, reportagens e opiniões
que denunciam os prejuízos causados pelos agrotóxicos
ao meio ambiente e à saúde humana ou animal.
Segundo
estas empresas (e isso se aplica também para suas entidades),
os agrotóxicos têm a ver com a sustentabilidade da
agricultura, são absolutamente inofensivos para a saúde
, contribuem para matar a fome do planeta e por aí vai,
numa cantilena que chega a ser ridícula em virtude das
provas contrárias, produzidas por entidades de prestígio
na área ambiental, da saúde e da pesquisa agropecuária
(Embrapa, Fiocruz etc).
O
eufemismo "defesa vegetal" não tem conseguido
impedir que jornalistas, ambientalistas, profissionais de saúde,
agrônomos, produtores rurais conscientes e representantes
da sociedade civil em geral concluam ( o que está na cara!)
que agrotóxico (defensivo agrícola é uma
hipocrisia, uma farsa linguística e conceitual) é
veneno, não remédio. Há inclusive um excelente
texto sobre agrotóxicos, com farto material de pesquisadores
da Fiocruz, com este título.
Com
a complacência e cumplicidade de autoridades ( governantes
e inclusive professores e pesquisadores a serviço do capital
privado), não tem sido possível barrar a escalada
da indústria agroquímica e a ampliação
dos seus privilégios e monopólios, mas , em nome
da liberdade de expressão e dos interesses da sociedade,
será sempre importante resistir a este processo de intimidamento.
É
fundamental reforçar a verdade dos fatos e ela é
insofismável: agrotóxico é veneno, mata ,
causa doenças e penaliza o meio ambiente. Quem tiver dúvida,
consulte o site da ANVISA sobre as estatísticas de mortes
por agrotóxicos ou sobre contaminação de
alimentos em geral por resíduos tóxicos. Essa história
de "remedinho para planta" faz parte do cinismo condenável
de parcela significativa desta indústria e de seus parceiros.
Que os jornalistas e veículos comprometidos com a verdade
(o meio ambiente, a agricultura e a saúde) não se
esqueçam disso. Mais atenção aos releases
que chegam destas fontes: é preciso enxergar além
da notícia. Desconfie deles, investigue a origem e a qualidade
das informações . Não se sinta seduzido por
coletivas bem organizadas ou por prêmios ambientais patrocinados
por empresas da área. Converse com fontes independentes.
De uma vez por todas, é preciso dar um basta a esta comunicação
agrotóxica. Ela está intoxicando o jornalismo brasileiro.
Infelizmente,
a qualidade não acompanha, necessariamente, a quantidade
e, por isso, há um desequilíbrio imenso entre os
bons cursos (que existem tanto em universidades públicas
como privadas) e aqueles que só se justificam pela exigência
do diploma para o exercício da profissão e pela
ânsia de lucro de empresários inescrupulosos.
Da
mesma forma, a existência de duas centenas de cursos não
significa que conteúdos, saberes e práticas fundamentais
estejam sendo contemplados, como é o caso do meio ambiente
e do agronegócio, praticamente esquecidos no ensino do
Jornalismo em nosso País.
Embora
o interesse por estas áreas tenha crescido consideravelmente
nos últimos anos, em função seja da importância
do agronegócio para a economia brasileira, seja do impacto
gerado pelo "progresso" e consumo acelerado ao meio
ambiente, a Universidade, de maneira geral, as ignora.
Poucas
são as disciplinas (obrigatórias ou optativas) que
se dedicam a apresentar os conceitos, os temas principais e, sobretudo,
a discutir criticamente a cobertura da mídia associada
ao agronegócio e ao meio ambiente. Um número menor
ainda permite aos alunos desenvolver experiências concretas
de produção de matérias nestas áreas.
Felizmente,
temos algumas iniciativas pioneiras e bem sucedidas, como as apresentadas
nesta edição (Vide o menu Entrevista, que traz o
depoimento dos professores André Trigueiro e Ilza Girardi,
respectivamente, sobre as experiências da PUC/RJ e da UFRS).
A Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais também está
atenta para a questão e a tem tratado em seu grupo de discussão.
O Congresso de Jornalismo Ambiental, realizado em Santos, este
ano, também lhe dedicou um espaço importante. Já
há ofertas, ainda que reduzidas, de cursos a distância
que contemplam o Jornalismo Ambiental. Certamente, a situação
é muito menos favorável para o Jornalismo em Agribusiness
do que para o Jornalismo Ambiental, dada a mobilização
dos profissionais que atuam nesta área.
Mas
é preciso fazer mais e andar mais depressa. Urge estudar
a proposta de um programa básico (que não impeça,
evidentemente, o estudo e a pesquisa de questões locais),
ampliar a literatura específica, criar espaços plurais
de discussão e, sobretudo, sensibilizar coordenadores dos
cursos de Jornalismo para que introduzam disciplinas ou cursos
de extensão. Não é utópico imaginar
a possibilidade em futuro próximo de cursos de especialização
ou mesmo de linhas de pesquisa em programas de Pós-Graduação,
já que inúmeras dissertações e teses
têm tido a comunicação e meio ambiente ou
a comunicação e o agronegócio como objeto
de estudo.
É
preciso fazer circular rápida e amplamente as informações
sobre as experiências já em curso, organizar banco
de fontes e de textos básicos, particularmente on line,
mobilizar os sindicatos e as associações da área.
A
qualificação da cobertura do meio ambiente e do
agronegócio depende da boa formação universitária
e acadêmicos e jornalistas (muitos acumulam hoje esta dupla
condição) comprometidos com a imprensa crítica
e competente podem contribuir para que ela seja efetiva.
Está
na hora de darmos um salto qualitativo no jornalismo ambiental
e do agronegócio.
|