
O
confronto entre Mídia e Meio Ambiente
Eloísa Beling Loose*
A mídia informa e é capaz de legitimar representações
e conceitos diante da sociedade. Suas ações marcam
espaços e maneiras de ser, pensar e agir perante as questões
que tangem às relações humanas. Já
o meio ambiente é o que nos permite sobreviver sobre o
planeta Terra. Ele incorpora a água que bebemos, o ar que
respiramos, os recursos naturais com os quais produzimos alimentos,
roupas, proteção e conforto. Haveria motivos para
a mídia confrontar-se com aquilo que nos mantêm vivos?
É um paradoxo observar que, muitas vezes, quem poderia
esclarecer os cuidados e riscos que o meio ambiente necessita
para sua preservação (e aqui, implícita,
está a manutenção da vida do homem) trata
esta de modo indiferente. Parece, à primeira vista, inadmissível
que a maior fonte de disseminação das informações
reserve o espaço destinado às reflexões sobre
as condições do nosso habitat para notícias
de cunho ambiental meramente ilustrativas. Refiro-me às
matérias jornalísticas focadas em curiosidades da
vida animal, em fatos pitorescos do cotidiano que abrangem a fauna
ou a flora e de espetacularizações em cima de fenômenos
naturais. A tragédia ou o desastre ambiental pauta os meios
de comunicação em virtude, especialmente, do tom
apocalíptico que se impõe à notícia.
Sabemos que os jornais e programas jornalísticos em geral
buscam o conhecido "furo". Esse jargão, amplamente
difundido dentro das redações, demarca a questão
da importância dada às informações
publicadas na mídia: mais vale divulgar o inusitado pífio
ao problema que, mesmo sendo de relevância, seja permanente.
Nota-se muito tal descaso em jornais de veiculação
diária. Embora hoje em dia já existam editorias
específicas para a pauta sobre meio ambiente, estas são
restritas e mal-aproveitadas. Os próprios repórteres
encarregados das seções indicadas não possuem
domínio dos termos utilizados nesse campo. Faltam recursos
para a produção de reportagens maiores e as páginas
destinadas ao tema são as de menos valor. Conclui-se que,
apesar de existir exceções, a notícia ambiental
é desprestigiada pelas empresas jornalísticas, resultando
em matérias pouco atrativas e de pouco interesse público.
É claro que não podemos generalizar. Há veículos
de comunicação que desempenham satisfatoriamente
sua responsabilidade social e ambiental diante de seus receptores.
Nos dias de hoje, vê-se na internet um enorme leque de possibilidades
de endereços eletrônicos que informam de maneira
compreensível as problemáticas que envolvem o meio
ambiente. Também há editorias de impressos e blocos
de programação, radiofônica e televisiva,
que proporcionam uma visão consciente sobre a temática.
O que pretendo frisar são os aspectos que impedem que a
notícia ambiental, em sua essência, seja colocada
para a sociedade. Haveria motivos para ocultar fatores que põe
em risco nosso mundo? Se os interesses econômicos e políticos
prevalecem sobre a existência humana, com certeza, está
faltando um pouco de ética no jornalismo que consumimos.
Sabemos, já há algum tempo, que o poder legitimado
pela mídia não prioriza a conservação
humana. As pressões pelas quais são submetidos os
jornalistas, emaranhados nas frágeis redes da estrutura
do exercício da profissão, os fazem temer desvelar
os jogos de complacência construídos no meio midiático.
Além disso, a falta de qualificação não
os permite noticiar com clareza as pautas ambientais.
Urge, em vista do que foi exposto, reforçar as bases do
jornalismo, primordialmente no que tange às circunstâncias
ambientais. A valorização do respeito ao meio em
que vivemos e de suas conseqüências carecem ter mais
visibilidade por parte dos meios de comunicação.
Na teoria, a formação jornalística por si
só já faria uso de temáticas sociais, em
prol de sua atividade cívica de informar (o que incluiria
no hall de suas abordagens o meio ambiente), porém, na
prática, é preciso apelar constantemente pelo enfoque
do tema. Quando é que os atores construtores dos assuntos
lançados na mídia irão se dar conta de suas
falhas? Como poderemos crer em uma sociedade mais consciente se
a mídia vai de encontro ao bem-estar comum?
Lutemos para que a veiculação
da informação ambiental cresça e se solidifique,
no intuito de evitar que os erros e prejuízos prevaleçam
por tempo indeterminado. O meio ambiente pede ajuda. O confronto
aparentemente constituído não precisa (e nem deve!)
ser permanente. À mídia, mais isenção
e responsabilidade ambiental. Ao meio ambiente, forças
para continuar apontando os deslizes humanos e conseguir seu espaço
na consciência social.
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Eloísa Beling Loose
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa
Maria.
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