Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          Informação para a ação: a proposta do programa Ambiente Vivo

Reges Toni Schwaab*

           Resumo

           Trago aqui um breve relato das intencionalidades do programa Ambiente Vivo, veiculado pela rádio educativa UNIJUÍ FM, de Ijuí/RS, costurada à visão que guia nosso fazer jornalístico. Entendemos que é necessário exercitar um jornalismo que proponha o debate, traga elementos para a compreensão da realidade e que seja atrativo a um público heterogêneo, mesmo em programas dedicados a temas específicos. O compromisso a ser desenvolvido é o de um jornalismo "ambiental" que transcenda o factual e abra espaço diário para a problemática ambiental.

           Desde a sua proposta inicial, antes da inauguração, em 2001, a UNIJUÍ FM, rádio educativa inserida no contexto da UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, de Ijuí-RS, adotou meio ambiente como tema prioritário, como fez também com cidadania, educação, saúde, cultura e assuntos da sociedade civil organizada. Mesmo sendo uma emissora de rádio FM e, por isso, tendo também um bom espaço destinado à música, decidiu-se permear a programação com espaços informativos, sejam de noticiários, programas de entrevista, ou ainda espaços específicos para os temas definidos como balizadores da programação.

           Foi desta forma que surgiu o Ambiente Vivo. Um espaço semanal, atualmente de meia hora, indo ao ar todos os sábados, às 8h30. Os assuntos abordados no programa aparecem também desdobrados em módulos informativos de um minuto e meio, diluídos na programação musical da UNIJUÍ FM, que aposta num formato diferenciado, oferecendo aos ouvintes, diariamente, acesso a nomes do cenário independente, de vários estados do Brasil, mesclando sons conhecidos com propostas alternativas e de qualidade. Uma filosofia que também se aplica ao jornalismo que procuramos praticar aqui, exercitando diariamente o fazer jornalístico que tenha sentido para a vida de quem ouve a 106.9.

           Estas questões impõem muitos desafios, igualmente enfrentados ao se pensar a pauta ambiental, uma vez que, como diz Bacchetta:

           Se considerarmos o meio ambiente como o conjunto de sistemas naturais e sociais habitados pelo ser humano e pelos demais seres vivos existentes no planeta e dos quais obtém seu sustento, o jornalismo ambiental é um dos gêneros mais amplos e complexos do jornalismo. (BACCHETTA, 2000, p.18, tradução minha) (1)

           Desta complexidade justamente emerge a riqueza do tema, que pode ser desdobrada em muitas pautas, a ponto de perpassar vários espaços jornalísticos de quem se propõe a abordar meio ambiente. O programa Ambiente Vivo foi concebido e busca pautar sua atuação numa proposta de jornalismo que leve em conta a visão sistêmica e de inter-relação entre todos os fenômenos e seres vivos. Nosso desejo é conseguir estabelecer conexões entre o local e o global, abordando, por exemplo, assuntos da pauta nacional e internacional com fontes locais e propondo discussão de problemas locais com fontes de outras cidades do estado e/ou regiões do país, que atuem em áreas correlatas ao tema discutido ou que tenham enfrentado o mesmo problema em seus municípios.

           Hoje, diante da crise ambiental atual e da intensa enxurrada de discursos que observamos, nos quais uma ecologia cosmética mascara danos ambientais de conseqüências irreversíveis, o jornalismo está diante de uma grande obrigação: propor reflexões que visem à verdadeira sustentabilidade, sendo reflexivo na linguagem e na qualidade das mensagens produzidas, com um forte elo no ambiental, questionando os rumos da humanidade, via paradigmas ecológicos.

           Cumprir essa missão levanta a necessidade de não reforçar o estigma de que meio ambiente é sinônimo de fauna e flora ou tocar na pauta quando mais um acidente ecológico aconteceu, quando se vende madeira ilegalmente ou, ainda neste barco, com matérias jornalísticas enfocando a natureza apenas pela via da contemplação. A informação de tragédias, ainda que indiretamente sensibilize uma parcela da população ou cobre atitudes de autoridades, é pouco reflexiva em relação às causas e possíveis alternativas para o que se apresenta, trazendo uma visão fragmentada da questão.

           O compromisso é o de desenvolver um jornalismo "ambiental" que transcenda o factual e abra espaço diário para a problemática ambiental. O Ambiente Vivo tem esse propósito, buscando uma interlocução com instituições e organizações ligadas à questão ambiental, órgãos governamentais estaduais, ONG's e pessoas dedicadas à causa ecológica. O foco está voltado para uma compreensão dos temas por um viés sócio-ambiental, onde os variados pontos de vista possam ser apresentados e questionados.

           A abrangência heterogênea do rádio também deve sempre ser levada em conta na adequação da linguagem, dando o mesmo peso de importância aos dois tipos de público ouvinte: aqueles ligados à temáticas específicas e que, portanto, têm um conhecimento prévio dos temas escolhidos como pauta, bem como o público em geral. Ambos devem se sentir à vontade e instigados a acompanhar o que está sendo apresentado. Desta forma, procuramos estar em sintonia com a evolução do rádio, buscando "uma multiplicidade de utilizações do meio, expressa em diferentes formatos de programação dirigidos a públicos diversos" (Meditsch, 2001, p. 31).

           Pela grande difusão da comunicação, as matérias jornalísticas constituem-se muitas vezes na única fonte de conhecimento sobre aquele assunto para muitas pessoas, o que aumenta a responsabilidade na produção. O papel está em fornecer subsídios para uma compreensão das problemáticas ambientais e que o ouvinte possa fazer as relações necessárias. Estabelecer as conexões que expliquem o caminho para a sustentabilidade é fazer compreender a teia da vida.

           Cabe ainda lembrar que rádios e canais de televisão são concessões públicas. Seu jornalismo tem, portanto, a missão de contribuir para a consciência crítica da sociedade através da democratização da informação. Da mesma forma, os jornalistas

           [...] deverão mudar o seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional baseada na consciência social e ecológica. Em vez de se concentrar em apresentações sensacionalistas de acontecimentos aberrantes, violentos e destrutivos, repórteres e editores terão de analisar os padrões sociais e culturais complexos que formam o contexto desses acontecimentos, assim como noticiar as atividades pacíficas, construtivas e integrativas que ocorrem me nossa cultura. Prova de que este tipo maduro de jornalismo é socialmente benéfico e pode ser também um bom negócio é o número crescente de veículos alternativos de informação eu promovem novos valores e estilos de vida (CAPRA, 1982, p.400).

           Esta compreensão tem guiado nossas intencionalidades e impõe o desafio de, semanalmente, abordar da melhor forma as relações sociedade e/na natureza. Hoje, temos certeza que o viés ambiental está presente em praticamente todos os assuntos que vamos abordar em nossas notícias, boletins ou reportagens. A necessidade de abordar meio ambiente diariamente foi incorporada a tal ponto pela equipe, que hoje mesmo as edições curtas de noticiário não vão ao ar sem alguma nota da área ambiental. De um programa semanal o assunto foi ganhando espaço em todos os programa jornalísticos, na busca de enxergar, por vários ângulos possíveis, desde a necessidade de coleta seletiva na cidade até efeito estufa e aquecimento global, e refletir onde cada um contribui, positiva ou negativamente, para um mundo melhor.

           Adotamos como problemáticas permanentes a serem abordadas o desmatamento, a questão da água, saneamento ambiental, coleta de lixo, desperdício, consumismo, poluição e, ao mesmo tempo, buscamos exemplos visitando escolas, realizando reportagens sobre reciclagem, uso racional da água e da energia, destino correto de resíduos, reflorestamento, questão indígena, economia solidária entre outros.

           A tarefa não é das mais simples, mas estamos dispostos a fazer a nossa parte e, por isso, sempre abertos a contribuições e opiniões que auxiliem nessa tarefa que a UNIJUÍ FM se propõe enquanto emissora educativa. Estamos 24 horas on-line no endereço www.unijui.tche.br e nosso e-mail de contato é radio@unijui.tche.br.

           Notas

1) Si considerarmos al medio ambiente como el conjunto de sistemas naturales y sociales habitados por el humano y los demás seres vivos existentes em el planeta y de los cuales obtienen su sustento, el periodismo ambiental es uno de los géneros más amplios y complejos del periodismo (BACCHETTA, 2000, p.18).

           Referências

BACCHETTA, Víctor. El periodismo ambiental. In: BACCHETTA, Vítor L. (org). Ciudadanía Planetaria: temas y desafios del periodismo ambiental. Uruguai: Federación Internacional de Periodistas Ambientales / Fundación Fridrich Ebert, 2000

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. São Paulo: Cultrix, 1982.

MEDITSCH, Educardo. O Rádio na Era da Informação - teoria e técnica do novo radiojornalismo. Florianópolis: Insular, Ed. da UFSC, 2001.

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Reges Toni Schwaab
Jornalista, coordenador pedagógico da Rádio UNIJUÍ FM.

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