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Informação
para a ação: a proposta do programa Ambiente Vivo
Reges Toni Schwaab*
Resumo
Trago aqui um breve relato das intencionalidades do programa Ambiente
Vivo, veiculado pela rádio educativa UNIJUÍ FM,
de Ijuí/RS, costurada à visão que guia nosso
fazer jornalístico. Entendemos que é necessário
exercitar um jornalismo que proponha o debate, traga elementos
para a compreensão da realidade e que seja atrativo a um
público heterogêneo, mesmo em programas dedicados
a temas específicos. O compromisso a ser desenvolvido é
o de um jornalismo "ambiental" que transcenda o factual
e abra espaço diário para a problemática
ambiental.
Desde a sua proposta inicial, antes da inauguração,
em 2001, a UNIJUÍ FM, rádio educativa inserida no
contexto da UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul, de Ijuí-RS, adotou meio
ambiente como tema prioritário, como fez também
com cidadania, educação, saúde, cultura e
assuntos da sociedade civil organizada. Mesmo sendo uma emissora
de rádio FM e, por isso, tendo também um bom espaço
destinado à música, decidiu-se permear a programação
com espaços informativos, sejam de noticiários,
programas de entrevista, ou ainda espaços específicos
para os temas definidos como balizadores da programação.
Foi desta forma que surgiu o Ambiente Vivo. Um espaço semanal,
atualmente de meia hora, indo ao ar todos os sábados, às
8h30. Os assuntos abordados no programa aparecem também
desdobrados em módulos informativos de um minuto e meio,
diluídos na programação musical da UNIJUÍ
FM, que aposta num formato diferenciado, oferecendo aos ouvintes,
diariamente, acesso a nomes do cenário independente, de
vários estados do Brasil, mesclando sons conhecidos com
propostas alternativas e de qualidade. Uma filosofia que também
se aplica ao jornalismo que procuramos praticar aqui, exercitando
diariamente o fazer jornalístico que tenha sentido para
a vida de quem ouve a 106.9.
Estas questões impõem muitos desafios, igualmente
enfrentados ao se pensar a pauta ambiental, uma vez que, como
diz Bacchetta:
Se considerarmos o meio ambiente como o conjunto de sistemas
naturais e sociais habitados pelo ser humano e pelos demais seres
vivos existentes no planeta e dos quais obtém seu sustento,
o jornalismo ambiental é um dos gêneros mais amplos
e complexos do jornalismo. (BACCHETTA, 2000, p.18, tradução
minha) (1)
Desta complexidade justamente emerge a riqueza do tema, que pode
ser desdobrada em muitas pautas, a ponto de perpassar vários
espaços jornalísticos de quem se propõe a
abordar meio ambiente. O programa Ambiente Vivo foi concebido
e busca pautar sua atuação numa proposta de jornalismo
que leve em conta a visão sistêmica e de inter-relação
entre todos os fenômenos e seres vivos. Nosso desejo é
conseguir estabelecer conexões entre o local e o global,
abordando, por exemplo, assuntos da pauta nacional e internacional
com fontes locais e propondo discussão de problemas locais
com fontes de outras cidades do estado e/ou regiões do
país, que atuem em áreas correlatas ao tema discutido
ou que tenham enfrentado o mesmo problema em seus municípios.
Hoje, diante da crise ambiental atual e da intensa enxurrada de
discursos que observamos, nos quais uma ecologia cosmética
mascara danos ambientais de conseqüências irreversíveis,
o jornalismo está diante de uma grande obrigação:
propor reflexões que visem à verdadeira sustentabilidade,
sendo reflexivo na linguagem e na qualidade das mensagens produzidas,
com um forte elo no ambiental, questionando os rumos da humanidade,
via paradigmas ecológicos.
Cumprir essa missão levanta a necessidade de não
reforçar o estigma de que meio ambiente é sinônimo
de fauna e flora ou tocar na pauta quando mais um acidente ecológico
aconteceu, quando se vende madeira ilegalmente ou, ainda neste
barco, com matérias jornalísticas enfocando a natureza
apenas pela via da contemplação. A informação
de tragédias, ainda que indiretamente sensibilize uma parcela
da população ou cobre atitudes de autoridades, é
pouco reflexiva em relação às causas e possíveis
alternativas para o que se apresenta, trazendo uma visão
fragmentada da questão.
O compromisso é o de desenvolver um jornalismo "ambiental"
que transcenda o factual e abra espaço diário para
a problemática ambiental. O Ambiente Vivo tem esse propósito,
buscando uma interlocução com instituições
e organizações ligadas à questão ambiental,
órgãos governamentais estaduais, ONG's e pessoas
dedicadas à causa ecológica. O foco está
voltado para uma compreensão dos temas por um viés
sócio-ambiental, onde os variados pontos de vista possam
ser apresentados e questionados.
A abrangência heterogênea do rádio também
deve sempre ser levada em conta na adequação da
linguagem, dando o mesmo peso de importância aos dois tipos
de público ouvinte: aqueles ligados à temáticas
específicas e que, portanto, têm um conhecimento
prévio dos temas escolhidos como pauta, bem como o público
em geral. Ambos devem se sentir à vontade e instigados
a acompanhar o que está sendo apresentado. Desta forma,
procuramos estar em sintonia com a evolução do rádio,
buscando "uma multiplicidade de utilizações
do meio, expressa em diferentes formatos de programação
dirigidos a públicos diversos" (Meditsch, 2001, p.
31).
Pela grande difusão da comunicação, as matérias
jornalísticas constituem-se muitas vezes na única
fonte de conhecimento sobre aquele assunto para muitas pessoas,
o que aumenta a responsabilidade na produção. O
papel está em fornecer subsídios para uma compreensão
das problemáticas ambientais e que o ouvinte possa fazer
as relações necessárias. Estabelecer as conexões
que expliquem o caminho para a sustentabilidade é fazer
compreender a teia da vida.
Cabe ainda lembrar que rádios e canais de televisão
são concessões públicas. Seu jornalismo tem,
portanto, a missão de contribuir para a consciência
crítica da sociedade através da democratização
da informação. Da mesma forma, os jornalistas
[...] deverão mudar o seu modo de pensar, fragmentário,
deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova
ética profissional baseada na consciência social
e ecológica. Em vez de se concentrar em apresentações
sensacionalistas de acontecimentos aberrantes, violentos e destrutivos,
repórteres e editores terão de analisar os padrões
sociais e culturais complexos que formam o contexto desses acontecimentos,
assim como noticiar as atividades pacíficas, construtivas
e integrativas que ocorrem me nossa cultura. Prova de que este
tipo maduro de jornalismo é socialmente benéfico
e pode ser também um bom negócio é o número
crescente de veículos alternativos de informação
eu promovem novos valores e estilos de vida (CAPRA, 1982, p.400).
Esta compreensão tem guiado nossas intencionalidades e
impõe o desafio de, semanalmente, abordar da melhor forma
as relações sociedade e/na natureza. Hoje, temos
certeza que o viés ambiental está presente em praticamente
todos os assuntos que vamos abordar em nossas notícias,
boletins ou reportagens. A necessidade de abordar meio ambiente
diariamente foi incorporada a tal ponto pela equipe, que hoje
mesmo as edições curtas de noticiário não
vão ao ar sem alguma nota da área ambiental. De
um programa semanal o assunto foi ganhando espaço em todos
os programa jornalísticos, na busca de enxergar, por vários
ângulos possíveis, desde a necessidade de coleta
seletiva na cidade até efeito estufa e aquecimento global,
e refletir onde cada um contribui, positiva ou negativamente,
para um mundo melhor.
Adotamos como problemáticas permanentes a serem abordadas
o desmatamento, a questão da água, saneamento ambiental,
coleta de lixo, desperdício, consumismo, poluição
e, ao mesmo tempo, buscamos exemplos visitando escolas, realizando
reportagens sobre reciclagem, uso racional da água e da
energia, destino correto de resíduos, reflorestamento,
questão indígena, economia solidária entre
outros.
A tarefa não é das mais simples, mas estamos dispostos
a fazer a nossa parte e, por isso, sempre abertos a contribuições
e opiniões que auxiliem nessa tarefa que a UNIJUÍ
FM se propõe enquanto emissora educativa. Estamos 24 horas
on-line no endereço www.unijui.tche.br e nosso e-mail de
contato é radio@unijui.tche.br.
Notas
1) Si considerarmos al medio ambiente
como el conjunto de sistemas naturales y sociales habitados por
el humano y los demás seres vivos existentes em el planeta
y de los cuales obtienen su sustento, el periodismo ambiental
es uno de los géneros más amplios y complejos del
periodismo (BACCHETTA, 2000, p.18).
Referências
BACCHETTA, Víctor. El periodismo
ambiental. In: BACCHETTA, Vítor L. (org). Ciudadanía
Planetaria: temas y desafios del periodismo ambiental. Uruguai:
Federación Internacional de Periodistas Ambientales / Fundación
Fridrich Ebert, 2000
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação.
A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. São
Paulo: Cultrix, 1982.
MEDITSCH, Educardo.
O Rádio na Era da Informação - teoria e técnica
do novo radiojornalismo. Florianópolis: Insular,
Ed. da UFSC, 2001.
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Reges Toni Schwaab
Jornalista, coordenador pedagógico da Rádio UNIJUÍ
FM.
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