Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          Educação, meio ambiente e interesses privados

          O assédio das grandes empresas ao ambiente educacional brasileiro tem aumentado bastante nos últimos anos e este fato deveria, de há muito tempo, já ter merecido a atenção especial das autoridades brasileira e de entidades da sociedade civil.

          A indústria agroquímica e mais recentemente a de biotecnologia (quase sempre representadas pelas mesmas empresas ou grupos), a exemplo do que ocorre com a indústria farmacêutica, têm encontrado terreno livre para adentrar as nossas universidades, buscando influir decisivamente na formação dos futuros profissionais, certamente com a intenção de atraí-los para sua visão de mundo, nem sempre de acordo com o interesse público e da nação brasileira.

          O processo crescente de degradação do ensino público tem favorecido esta invasão indevida. Com isso, antes mesmo de chegarem ao mercado, futuros profissionais da área de Ciências Agrárias (Agronomia, Zootecnia, Veterinária etc) são apresentados a soluções que visam, sobretudo, aumentar os lucros das grandes corporações multinacionais que atuam no setor de sementes, fertilizantes, agrotóxicos etc, quase sempre interessadas em obter o controle do mercado através de ações e estratégias monopolísticas.

          Infelizmente, em muitos casos, esta presença nefasta conta com a omissão ou mesmo a cumplicidade das direções das instituições universitárias e de professores/pesquisadores, muitos deles comprometidos com estas organizações.

          O problema, no entanto, tem assumido proporções cada vez mais dramáticas, até porque, não safisfeitos em avançar sobre os nossos jovens universitários, as empresas agora se dispõem (ou são convidadas) a frequentar também as escolas de primeiro e segundo graus, onde encontram ainda terreno mais propício para difundirem seus conceitos. Professores mal formados, ou não atentos para os verdadeiros objetivos destas empresas, e diretores sem consciência crítica têm permitido o acesso a crianças com formação ainda incompleta e, portanto, incapazes de perceberem o jogo do capital privado.

          Este assédio é maior nos Estados e munícipios onde a presença destas corporações é mais significativa , o que evidencia a disposição de "fazer a cabeça" dos educadores e estudantes, preparando-os para uma agricultura baseada em soluções químicas e transgênicas, verdadeiras agressões aos conceitos de sustentabilidade e de biodiversidade.

          É fundamental que estejamos alertas e denunciemos esta investida dos interesses privados porque ela prejudica a formação dos nossos jovens e crianças na medida em que prioriza a vertente econômico/financeira em detrimento da vertente sócio-cultural, como se fosse esta a postura correta em termos de agricultura e meio ambiente.

          Os monopólios (leia-se Monsanto, Syngenta, Du Pont) precisam permanecer distantes do território sagrado das nossas universidades e escolas de primeiro e segundo graus. Os governos, os educadores e os administradores não podem compactuar com este processo excuso de interferência dos interesses privados no nosso ambiente educacional.

          Precisamos estar comprometidos firmemente com uma educação plural, que privilegie o espírito crítico, e que faça frente à ação deletéria dos interesses privados. Não devemos aceitar que esta perspectiva transgênica e agrotóxica prevaleça em nossas escolas. A agricultura, o meio ambiente e a própria sociedade não podem ficar à mercê da lógica do mercado e da racionalidade empresarial. Precisamos exorcizar esta bruxa "round up" que anda profanando o território sagrado da educação brasileira.

 

 
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