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DBO
segura o fôlego para continuar no topo
Sílvia Helena Silveira*
Prestes a completar 25 anos,
a revista DBO tem uma história singular. Nasceu como um
boletim da empresa leiloeira DBO, fundada pelos irmãos
Daniel Bilk e Odemar Costa, respectivamente jornalista e radialista.
A empresa não durou um verão, mas a publicação,
criada para divulgar os leilões promovidos pela dupla de
irmãos e que, após o primeiro número, começou
ser procurada por outras empresas leiloeiras, ganhou vida própria
e herdou o nome. Assim, o acaso deu origem a esta revista, que
tem tiragem de 25 mil exemplares e circulação paga
(não tem venda em bancas, apenas assinaturas) já
chegou a quase 20 mil e hoje está em torno de 16 mil (a
revista é filiada ao IVC - Instituto de Verificação
de Circulação).
Pode-se
dizer que a publicação estava no lugar certo na
hora certa: no ano de 1982 - o da criação da boletim
- os leilões para a venda de animais, principalmente eqüinos
e bovinos, tradicionais no Rio Grande do Sul, começavam
a prosperar em São Paulo e avançar para outros Estados
do Sudeste e Centro-Oeste. Na época, não havia nenhum
veículo especializando e as publicações tradicionais
não cobriam esses eventos. Em pouco tempo, tanto os leilões
com a DBO - ainda como "jornal de leilões" -
explodiram, puxados, sobretudo, pela venda de equïnos . Os
haras viraram febre. Chegou-se a vender cavalos a US$ 2 milhões.
O
auge dos leilões e da DBO coincide com o Plano Cruzado.
A circulação, até então mensal, passou
a quinzenal. E a equipe inicial de meia dúzia de funcionários
já chegava a 70. Para conseguir anunciar, as leiloeiras
tinham que reservar as inserções com antecedência.
Nesse período, os leilões ocupavam 70% do espaço
do jornal. O ocaso do Plano Cruzado também coincide com
o ocaso dos Haras e os leilões milionários, com
os valores em dólares, viraram pó. E a DBO - Jornal
de Leilões afundou junto.
A
reviravolta se daria no início dos anos 90. Foi preciso
praticamente reinventar uma nova publicação. O noticiário
de leilões que até então ocupavam toda a
revista virou um assunto secundário - embora, ainda, ocupasse
espaços generosos. Ganhou espaço a cobertura sobre
tecnologia pecuária.
Nova
sorte da editora: a mudança da revista coincidiu com o
início da revolução da pecuária de
corte no Brasil, criando demanda por informações
sobre novas tecnologias. De outro lado, havia uma profusão
dessas novas tecnologias. Resumindo: havia demanda por novas tecnologias
e havia essas novas tecnologias sendo geradas. Trocando em miúdos:
a DBO estava no lugar certo e na hora certa novamente. Em cinco
anos, mesmo não sendo distribuída em banca e venda
de assinaturas apenas por telefone, a circulação
paga quadruplicou, passando de 4.000 para os aproximadamente 16
mil assinantes.
Sucesso
de público, êxito junto aos anunciantes: a revista
chegou a circular com 340 páginas - 240 delas pagas e 100
de editorial. Explica-se esse sucesso publicitário, mesmo
não tendo uma tiragem exuberante - o perfil dos seus leitores.
Pode-se dizer que é a nata da nata do setor agropecuário.
Dos
seus assinantes, 12% tem pós-graduação, 45%
possuem curso superior e 36% segundo grau ou superior incompleto.
Confrontando-se com os dados de pesquisa da Kleffmann - Agronegócios
(empresa de pesquisa de mercado de capital alemã que atende
as principais fabricantes de maquinários e insumos rurais),
os leitores da DBO estão no topo da pirâmide tanto
na formação quanto no porte. Enquanto que, no setor
pecuário como um todo a empresa detectou um nível
de escolaridade complemente distinto: 50% têm primeiro grau,
33% segundo grau e 17% completou curso universitário.
Em
termos de porte, dos proprietários que lêem alguma
publicação especializada em pecuária e têm
rebanhos entre 200 e 500, 34,9% assinam a DBO; entre os que têm
entre 500 e 1.000 cabeças, o número chega a 40,8%;
dos que têm entre 1.000 e 2.000, 47,8%; dos que estão
na faixa entre 2.000 e 5.000, 49,6% e dos que têm acima
de 5.000 cabeças, 67,4%.
Reportagens
e equipe qualificada
Como
explicar esse sucesso? Ele pode estar no conteúdo. Desde
o início, a revista investiu em reportagens. Sua equipe
fixa de jornalistas percorre o País todo e também
o exterior em busca de bons assuntos. Outra explicação
pode estar na longevidade da redação. Há
pouco turn over. Sem contar as contratações novas,
há jornalistas que estão desde a fundação
da revista. Nenhum deles tem menos de 10 anos de experiência
na área.
Vários
jornalistas da equipe exibem experiência de 20, 30, 40 e
até 50 anos no mundo rural e com passagens por grandes
veículos, como Dirigente Rural, Globo Rural, Guia Rural,
o Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Isto não é
pouco, quando olhamos os concorrentes da DBO. A maioria deles
funciona com apenas um jornalista. Este, em muitos casos, é
o próprio dono da publicação.
Se
dá qualidade à revista, a equipe fixa - e experiente
- vira uma faca de dois gumes na crise. "É o nosso
ponto forte é também o nosso ponto fraco na crise,
como a vivida agora pela pecuária por causa dos focos de
febre aftosa no Mato Grosso do Sul e Paraná e que nos afetou",
diz Demétrio Costa, diretor de redação.
Ele
explica: "Para manter uma redação fixa, os
custos fixo são altíssimos. Além dos salários,
bem acima da concorrência, e dos encargos, a empresa não
pode utilizar práticas comuns entre os seus concorrentes:
reduzir a tiragem, atrasar ou suspender a circulação.
Tendo ou não anúncios, que banquem a despesa total,
a revista sai. A DBO tem milhares de assinantes que esperam a
revista. A maioria deles ,89%, chega a colecionar os exemplares.
A empresa descobriu esta característica dos seus leitores
nas pesquisas anuais que realiza: os números guardados
são utilizados como fonte, para consultas posteriores.
O pecuarista quer checar se os seus resultados, com determinado
manejo, coincidem com os da reportagem. Com este vínculo,
tão estreito junto ao seu público alvo, a equipe
está sempre atenta. A reportagem de um jornalista - mesmo
o mais experiente - sempre passa pelas mãos de mãos
de um terceiro. E, mesmo neste time tão afiado e coeso,
a presença diária de um zootecnista não é
descartada: ele está lá, todos os dias, trabalhando
junto aos redatores.
Com
todas estas particularidade e mais: com a tiragem e a circulação
auditadas pelo IVC, na crise, a DBO acredita que fica em desvantagem.
"Os concorrentes não têm equipes fixas nas redações.
Muitos sequer registram os jornalistas. Como não têm
assinantes, nem auditam a tiragem e nem a circulação,
tiram poucos exemplares ou chegam a suspender a edição
- quando não conseguem publicidade suficiente. Conseqüentemente
não têm sequer despesas com os Correios", afirma
Demétrio.
Embora
reconheça que foi surpreendido pela crise e admita que
não estava preparada para esse mau momento, a diretoria
tomou uma decisão: a redação será
preservada. "Custa caro mas é o nosso diferencial
e a nossa garantia de que vamos continuar oferecendo informações
de qualidade aos nossos leitores", diz, lembrando que, hoje,
a empresa virou multimídia. Além da revista DBO,
o site foi totalmente remodelado. Muitas reportagens e as notícias
do dia-a-dia estão abertas para todos os internautas. As
últimas alterações, realizadas em março
último, deslocaram completamente a secção
de leilões da Revista para o "Jornal de Leilões"
no portal. Em compensação, ele foi ampliado, ganhando
nova roupagem. "Ninguém tem este produto - e a DBO
está apostando nele".
Mas
a aposta não fica por aí. Há quatro anos,
a empresa começou a programar sua inserção
na televisão: adquiriu um novo imóvel, próximo
a sua sede. Remodelou, comprou equipamentos e firmou uma parceira
para produzir um programa dentro do Canal Terra Viva, do Grupo
TV Bandeirantes. O projeto ainda é muito ambicioso, mas
a empresa acredita que poderá realizá-lo. Não
com a velocidade idealizada, mas com fôlego para não
cair.
Receita
Ainda
que tenha entre os seus anunciantes e leitores grandes fazendeiros,
a revista não se coloca como órgão de defesa
dos seus interesses políticos ou econômicos. Por
exemplo, se coloca neutra na questão da reforma agrária
- embora seus diretores tenham posições claras.
Não concordam com a forma como ela é conduzida e
nem com a invasão de fazendas produtivas - mas reconhecem
que ela seja necessária. Entendem que a terra tem uma função
social, e não deve ser utilizada como reserva de valor.
Mesmo
mantendo-se neutra, a revista abre espaço para as lideranças
rurais, consultores, pesquisadores e representantes dos fabricantes
de máquinas e insumos para o setor pecuário e a
própria indústria frigorífica - seja em reportagens,
entrevistas ou pontos de vistas - que levem ao aperfeiçoamento
da cadeia produtiva da carne bovina.
"Eles fazem parte da cadeira produtiva e devem ocupar o espaço
quando julgamos ser necessário, dependendo do tema e do
interesse jornalístico que este debate demanda naquele
momento. Quase sempre é a própria DBO quem os procura",
esclarece.
A
receita da equipe da DBO é sempre mostrar quem faz certo,
os produtores que saem na frente porque inovam ou porque têm
soluções alternativas para driblar as dificuldades
da atividade. Por exemplo, no calor da crise iniciada em outubro
último com os focos de aftosa no Mato Grosso do Sul, a
revista mandou um repórter percorrer o Estado do Paraná.
Na peregrinação jornalística, a revista descobriu
que, nessas regiões, dezenas de produtores estavam passando
ao largo da crise. Segredo: os pecuaristas de oito municípios
se uniram e fizeram parceria diretamente com os varejistas para
produzir bois de qualidade e haviam transformado os frigoríficos
- os seus inimigos viscerais - em meros prestadores de serviço.
Eliminando os intermediários, estavam conseguindo, pelos
bois, até 40% a mais. A reportagem está na capa
da edição deste mês de abril.
Esse
é apenas um exemplo de como a revista se antecipa às
tendências.
Na década de 80, a novidade era o leilão, que se
banalizou. Hoje é impossível vender animais selecionados
fora dos grandes leilões. Na década de 90, as novas
tecnologias que chegavam ao País, como manejo de pastagens,
alimentação e cruzamento industrial eram as novidades.
Na virada dos anos 90 para o século 21, ganhou importância
a gestão nas fazendas. Agora, a revista bate-se num tema:
o problema e a solução da pecuária está
da porteira da fazenda para fora.
Demétrio
Costa entende que um dos segredos é exatamente oferecer,
em primeira mão, experiências inovadoras - sejam
tecnológicas ou comerciais. "A equipe da DBO está
sempre atenta às novidades e às tendências.
O problema é que, com isso, a cobrança aumenta.
O leitor está sempre esperando pão quente e pão
quente não tem toda hora", admite ele.
Driblando
as crises
A
atual crise assusta. Mas a empresa procura driblá-la. Na
verdade, ela não começou em outubro último.
O seu início começou em 2001. Foi a crise do cruzamento
industrial, que permitira um grande avanço da pecuária.
Na esteira da novidade, o Brasil importou genética do mundo
todo e o setor passou a trabalhar praticamente com todas as raças
de corte européias. Porém, o cruzamento industrial
entre as raças zebuínas e as raças européias
- cujos criadores eram os maiores anunciantes da revista - fez
água. Por inabilidade dos pecuaristas, os bois cruzados
ganhavam mais peso. Mas a maioria dos produtores não fazia
manejo correto e com isso não conseguiam bom acabamento
de carcaça - exigência fundamental dos frigoríficos.
Sem acabamento de gordura, a boiada passou ser recusada pelos
frigoríficos ou eram pagos com deságios. Foi um
balde de água fria no cruzamento industrial e no faturamento
da DBO.
Graças
ao cruzamento industrial, a revista dificilmente circulava com
menos de 260 páginas Em setembro de 1999, bateu o recorde
de 340 páginas. Como a procura por inserção
não arrefecia, a empresa teve que desdobrar - lançando
cadernos especiais, como Genética e Alimentação.
Com o recuo no cruzamento industrial, a revista foi emagrecendo.
Mesmo reduzindo, no topo desta crise, saiu com 120 páginas.
Porém,
a empresa continua apostando na retomada do cruzamento industrial
- mas remodelado. A explicação é simples:
o gado híbrido é mais precoce e produz carne de
qualidade, macia, suculenta e saborosa. E como maior exportador
de carne bovina do mundo, com 2,281 milhões de toneladas,
o Brasil tem que segmentar o mercado. Hoje, o País vende
preço. Sem deixar de vender para os países que compram
preço, onde competitivamente é imbatível,
a cadeia da carne bovina tem, também, que buscar nichos
de mercados sofisticados, como os dos Estados Unidos e do Japão,
que, por problemas sanitários e de qualidade, não
compram do Brasil. O preço chega o dobro do obtido pelo
País. Dos mercados sofisticados, vendemos apenas para os
15 países que compunham a União Européia
Original.
Mas,
como esses mercados não observam apenas os valores intrínsecos
à a carne (maciez, suculência e sabor), mas também
os extrínsecos (informações completas sobre
genética, alimentação e insumos usados como
adubo nas pastagens, medicamentos usados da produção
do nascimento ao abate, não uso de trabalho escravo e infantil,
bem estar animal e respeito às leis ambientais e trabalhistas
do pais), a revista procura veicular matérias e reportagens
especiais enfocando estes temas. Afinal, pensam eles, estes pecuaristas-leitores
vendem e querem continuar negociando e ampliando seus negócios
com os europeus.
Quando o cruzamento industrial entrou em crise, afetando a receita
da empresa, a editora já fincava suas raízes em
outros terrenos - sempre no mundo rural; em 2002, lançou
uma revista para a cadeia de lácteos - a DBO Mundo do Leite,
que, hoje, circula bimestralmente. Em 2004, lançou a DBO
Agrotecnologia, Nutrição e Genética.
Pauta
Quinzenalmente,
quando realizam suas reuniões de pauta, a equipe de jornalistas
conhece quais são os assuntos que os leitores estão
mais interessados em determinada época. Há também
fatores como sazonalidade no campo. Por exemplo, época
de monta, de colheita para silagem, do nascimento dos bezerros.
E, além disto o período de safra e entressafra da
carne. Para cada um destes temas, uma série de reportagens
é preparada.
Por
exemplo, no período das chuvas, o produtor deve preparar
alimentação para o gado quando a seca vier e o pasto
secar, deixando o gado magro, perdendo peso e, conseqüentemente
dinheiro, já que ele é vendido por arroba. E cada
idade - preferencialmente - deve ter um peso médio.
Demétrio
Costa diz que a DBO é uma revista de prestação
de serviço e procura abordar temas técnicos, normalmente
áridos, com uma linguagem jornalística. O grande
desafio, entretanto, é encontrar um tom que seja compreensível
para quem está se iniciando na atividade e que seja útil
para quem tem longa experiência e também para os
técnicos, consultores e pesquisadoreso site "portaldbo".
No final de 2005, ganhou um espaço no Canal Terra Viva,
da TV Bandeirantes.
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Sílvia Helena Silveira
Jornalista com larga experiência na imprensa diária
e em publicações especializadas, com destaque à
sua atuação no jornalismo agrícola.
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