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Jornalismo
e Meio Ambiente (O papel social da mídia na conscientização)*
Pedro Celso Campos*
A Natureza é um capital
que o homem não criou. Apenas descobriu.
Schumacher
A vida humana só
tem sentido na Comunicação.
Paulo Freire
Resumo
Em virtude da responsabilidade social que lhe é inerente,
o jornalismo deve voltar-se para a educação ambiental
permanente. Para tanto, é necessário que os estudantes
- futuros jornalistas - travem contato, na Universidade, com uma
abordagem sistêmica indispensável à compreensão
das relações entre os fenômenos, não
só no que se refere ao meio ambiente - aqui tratado especificamente
a partir do consumo sustentável - mas em relação
ao próprio ensino, como instância de educação
libertadora, para vencer os preconceitos, romper os paradigmas
do racionalismo estabelecido, refundar a ética e rever
o conceito de objetividade. A pesquisa, tanto no aspecto quantitativo
quanto no qualitativo, comprova que o jornalismo ambiental, tal
como praticado hoje, não conduz à reflexão,
não estimula a visão crítica, não
explica as causas e conseqüências das informações
e não abre espaço para a livre manifestação
do receptor, atado que está a compromissos incompatíveis
com a biofilia, isto é, com a Vida e com a Paz. Estuda-se,
também, o conceito de integração como forma
de chegarmos à cooperação solidária
entre a mídia, a Universidade, os poderes constituídos
e a sociedade - na linha da Agenda 21 - em busca de uma educação
ambiental que vá além dos muros escolares, que supere
as abordagens pontuais e isoladas, que possa despertar a consciência
ecológica ao nível da cidadania, o que se fará
dotando o jornalismo do necessário viés educativo,
a partir do aprofundamento, da investigação, da
interpretação contextualizada, mediante as várias
ferramentas à disposição do profissional,
destacando-se, entre elas, a própria abordagem sistêmica
presente na recente proposta do Jornalismo Literário Avançado
e das histórias de vida. Por isto o trabalho também
examina a questão dos gêneros do jornalismo e as
teorias da comunicação, através dos quais
o discurso jornalístico é apresentado. O aprofundamento
sobre a temática ambiental se dá através
do exame mais detalhado sobre o fenômeno do consumismo e
a sustentabilidade, fatores de importância fundamental na
abordagem da crise ecológica. São examinadas, ainda,
propostas pró-ativas a favor de uma estética da
cultura da paz, do ecodesenvolvimento, do eco-socialismo etc,
todas assentadas no conceito de ecologia profunda, envolvendo
o respeito intrínseco à natureza e aos animais,
muito além do marco antropocêntrico, de inspiração
liberal.
Palavras-chave:
Jornalismo - Educação Ambiental - Consumo Sustentável
- Integração - Sistema - Cidadania
As
complexas relações entre Deus, Homem, Natureza,
conforme a tradição judaico-cristã, já
estão presentes no Livro das Origens (Gênesis), quando
o homem recebe a missão de "dominar a terra".
Depois, ao longo de sua história, passando pela Idade Média
e até nossos dias, a Igreja discutirá, permanentemente,
esse relacionamento. Antigos textos, estudados em qualquer revisão
bibliográfica do tema, tratam a ecologia e as relações
humanas através de páginas candentes de poesia e
fé, como em Santo Agostinho (séc. V) e São
Francisco de Assis (séc. XIII); ou através da crítica
aquilina de Erasmo de Roterdã (séc. XV), ou ainda
na visão holística de Teilhard de Chardin (séc.
XX). Em Chardin temos já uma fundamentação
do que o filósofo norueguês Arne Naess chamaria de
"ecologia profunda" no início da década
de 1970, quando se inicia, de fato, o movimento de conscientização
ecológica, por todo o mundo. A "ecologia profunda"
defende o direito intrínseco dos animais à vida
digna e reconhece a "inteligência do universo".
Essa compreensão do todo traduz a possibilidade de aproximação
ampla entre ciência e fé. Nas décadas de 1970
e 1980, autores como Amit Goswami, Fritjof Capra e outros, partem
da própria física de Einstein para especular que
o mundo não está dado, que tudo é um processo,
que a mente humana ainda não consegue compreender os mistérios
da vida e que, portanto, o que existe é um mundo de probabilidades,
como ensina a Mecânica Quântica, e não um mundo
de certezas, como pregava a visão newtoniana. Trata-se,
na verdade, de uma revisão do modo de vida capitalista
centrado no materialismo individualista e na acumulação.
Isto implica na refundação da própria Ética
em busca de uma Estética que possa superar, por exemplo,
o "estetismo" da informação como um fim
em si mesma, descompromissada com a reflexão, como é
possível verificar, especificamente, no empenho da mídia
em estimular o consumo a qualquer preço, sem se preocupar
com suas características de injustiça social, sobrecarga
do ecossistema e até doenças físicas (como
a obesidade infantil) e psicológicas associadas ao consumo
compulsivo ditado e modelado pela mídia unicamente com
finalidade de lucro.
O
estudante de comunicação, o jornalista ou o ambientalista
que pretenda estudar mais a fundo a situação do
consumo no mundo atual não pode dispensar, absolutamente,
uma fonte tão valiosa como o Relatório Anual do
Worldwatch Institute denominado "Estado do Mundo", veiculado,
no Brasil, pela Universidade Livre da Mata Atlântica, com
sede em Salvador-BA. O relatório é montado a partir
de dados da Organização das Nações
Unidas-ONU, do Banco Mundial e de outras instituições
de prestígio internacional. Para este trabalho, consultamos
o Relatório 2004, que traz importantes dados sobre a influência
da publicidade na indução ao consumo de massa, discutindo
o fenômeno do consumismo em si (inclusive do sofrimento
dos animais abatidos para consumo humano), também tratando
da quantidade e do tipo de lixo gerado pelo consumo moderno. Desse
tipo de estudo, resulta para o pesquisador o necessário
crivo crítico sobre o consumo conspícuo ou socialmente
injusto que caracteriza o mundo pós-moderno. Não
resta dúvida que o excesso de consumo (principalmente com
o lançamento de gases na atmosfera) está relacionado
com as mudanças climáticas que hoje preocupam os
governos da maioria dos países, embora não devamos
desconhecer ações que vêm sendo desenvolvidas
por todo o mundo, às vezes silenciosamente, para limpar
o ambiente e proteger a natureza. Uma dessas iniciativas é
o Princípio de Responsabilidade do Produtor-PRP, um mecanismo
oficial da legislação alemã que obriga o
fabricante a receber o produto usado de volta para reciclá-lo.
Isto, além de reduzir a quantidade de lixo, induz à
confecção de produtos mais resistentes, com maior
durabilidade, alterando fundamentalmente a cultura do produto
"descartável" que logo vai para o lixo, incluindo
itens tóxicos como embalagens químicas, baterias
de celular etc. O estudo da questão conduz ao necessário
conceito de consumo sustentável para a proteção
do meio ambiente e a salvação da vida no planeta.
Mas, trata-se de sustentar a vida ou sustentar o capital? Aqui
entra o viés ideológico de procedência neoliberal
que muitas vezes acaba roubando as bandeiras do movimento ecológico
em causas nada nobres, como denuncia o professor Wilson Bueno,
da ECA-USP. A idéia correta de sustentabilidade pode ser
encontrada nas principais conferências da ONU sobre meio
ambiente: a de 1972, em Estocolmo, (que mobilizou os governos,
em todo o mundo, na implantação de legislações
e mecanismos de controle ambiental), a do Rio, em 1992 (que mobilizou
a sociedade civil através das ONGS e do Movimento Ambientalista
Internacional), e a de Joannesburgo, em 2002, (que despertou o
interesse das empresas a favor do politicamente correto em matéria
ambiental). Além das conferências da ONU, os estudiosos
da questão podem confrontar o conceito de "desenvolvimento"
a partir das observações de Lester Thurow (1997),
do Massachusetts Institute of Tecnology - MIT, ou da apreciação
do mexicano Henrique Leff (2002) sobre "desenvolvimento sustentável",
ou, ainda, da avaliação de Ignacy Sachs (1986) sobre
"ecodesenvolvimento". Um bom roteiro de estudos sobre
meio ambiente deve incluir, igualmente, a proposta de "ecosocialismo"
apresentada por José Pedro Soares Martins (1991) que recorre
a Schumacher (1977) para expor a visão budista de trabalho
e desenvolvimento, a qual não estabelece oposição
entre tecnologia e espiritualidade. Para o budismo, o que condena
o homem não é a riqueza, mas o apego à riqueza.
Todavia,
é necessário que o estudo também inclua uma
avaliação crítica do próprio movimento
ambientalista, como convém ao bom jornalismo de investigação
aqui proposto. Se no início deste artigo aludíamos
à inevitável refundação da ética
a favor do consumo sustentável, aqui avançamos para
a necessária educação da cidadania na direção
dessa ética. Uma das principais instâncias de educação
da cidadania está nos Meios de Comunicação
de Massa, por isto defendemos um aprofundamento sobre o jornalismo
propriamente dito, suas teorias, seus gêneros, suas ferramentas
etc.
A primeira reflexão é sobre a Teoria da Informação-TI,
de Shannon e Weaver (década de 1940), que mede a eficácia
da comunicação entre dois pontos. A TI foi concebida
para estudar quantidades e capacidades de transmissibilidade,
por isto não dá conta de estudar a qualidade
dos conteúdos, nem a intencionalidade do contexto
produtor da informação. Quem vai trazer essa contribuição,
no mesmo período histórico, é a Cibernética
de Norbert Wiener, ao estudar exatamente a circularidade da informação
que permite ao receptor tornar-se, ele próprio, emissor,
pelo princípio da retroatividade. Isto rompe com a idéia
de causalidade linear subjacente na TI, ao considerar a reorganização
da informação a partir do feed-back. Ainda no mesmo
período, a Escola de Chicago discute, pragmaticamente,
as relações entre o homem e o meio ambiente ao tratar
da comunicação como fenômeno urbano, conforme
as pesquisas de Cooley e Park. Ainda na primeira metade do séc.
XX, a Escola de Frankfurt opera a Teoria Crítica-TC, firmando
o conceito de "indústria cultural", segundo o
qual a mídia seria responsável por "coisificar"
a informação, dirigindo-se às massas apenas
para obter proveitos financeiros e não para levá-las
à reflexão através das obras culturais, como
queria a dialética de Adorno. Todavia, aceitar totalmente
a TC seria ignorar o potencial da mente humana que também
é influenciada pelo contexto histórico, através
da família, da escola, da sociedade, da cultura adquirida
etc. Os MCM não têm poder total sobre o homem, pelo
menos não na mesma intensidade para todos os segmentos
de público. No campo específico do jornalismo, já
no séc. XIX discutia-se a Teoria do Espelho, que via no
jornalista um super-homem com a missão de corrigir as injustiças
do mundo a partir da realidade tal como ela se apresenta. Mas,
a quem caberia decidir sobre o Bem e o Mal? No séc. XX,
no contexto da II Grande Guerra, prolifera o conceito de objetividade.
Com a globalização capitalista, surge, na segunda
metade do século, a Teoria da Ação Social
que caracteriza a intencionalidade do gatekeeper como responsável
pela seleção das notícias. Na mesma época,
a Teoria Organizacional estudava a conformação ou
adaptação "natural" do jornalista à
política editorial do veículo onde trabalha, sem
questionamento. Mas é nas décadas de 1960 e 1970
- coincidindo com o crescimento da conscientização
ambientalista - que aparece a Teoria da Ação Política,
segundo a qual é a sociedade quem deve decidir como quer
as notícias. Esse retorno, ou feed-back, chega aos veículos
através dos seus institutos de pesquisa, permitindo a "reorientação"
do veículo. Essa "reorientação",
ou correção de rumo, está prevista na Teoria
Geral de Sistemas que comporta três movimentos básicos:
entrada (captação), estabilização
(processamento) e saída (publicação). O feed-back
incidirá na melhoria da qualidade do processamento da informação.
Essa importância estratégica do receptor está
consagrada na Teoria Estética da Recepção,
em Hans Robert Jauss (1994).
A
abordagem sistêmica é operada, no jornalismo, através
dos vários gêneros que organizam a mensagem jornalística
segundo seu objetivo de informar, opinar, interpretar ou divertir.
Os gêneros jornalísticos - Informativo, Opinativo,
Interpretativo e Recreativo - destacando-se a modalidade do Jornalismo
Literário Avançado e as técnicas de entrevista,
também são "ferramentas do sistema".
Outra
ferramenta indispensável para o jornalista é a Fotografia.
O que se discute é se a fotografia deve "documentar"
ou apenas "ilustrar" as notícias. Para realçar
a estética da imagem é ético "corrigir"
digitalmente a foto como aconteceu no atentado ao metrô
de Madri em setembro de 2004? Autores como Boris Kossoy, Roland
Barthes, Pierre Francastel ajudam a esclarecer essas questões
fundamentais no âmbito da comunicação não
verbal. Por sinal, uma foto vale por mil palavras? Novamente aqui
insiste-se na importância do ensino de jornalismo com qualidade
e aprofundamento ético na Universidade. Afinal, com as
novas tecnologias só resta mesmo o imperativo categórico
da ética para evitar que a imagem fotográfica seja
adulterada de todas as formas em nome da estética servindo
apenas para ilustrar ou para chamar a atenção do
leitor, ao invés de ser um confiável documento do
real acontecido. Esses autores também lembram a importância
do "casamento" entre texto e imagem, pois a foto só
vale por mil palavras se imaginarmos mil palavras para definí-la.
Vale dizer: a foto não pode e não deve abrir mão
da legenda se o seu objetivo é "explicar" e contextualizar
a notícia. É a boa foto que contribui para a clareza
da informação.
A
pesquisa quantitativa, que subsidia este ensaio, foi desenvolvida
através da Análise de Conteúdo (Bardin, 1988)
- que abrange os estudos de Jornalismo Comparado - e do Modelo
de Bauer ( 2002). Foram estudados, de janeiro a julho de 2005,
27 exemplares dominicais do maior jornal do país, a Folha
de S. Paulo (aqui denominado Jornal Nº 1) e igual número
de edições de um jornal diário do interior
de São Paulo, o Jornal da Cidade, de Bauru (aqui
denominado Jornal Nº 2). A pesquisa comprova a indiferença
dos jornais com o potencial educativo das mensagens em relação
ao meio ambiente e, especificamente, ao consumo sustentável.
Também é praticamente nulo o espaço do consumidor/receptor
na produção de matérias ambientais. O levantamento
ainda mostra a falta de abordagem crítica das notícias,
isto é, não há preocupação
em explicar as causas e as conseqüências das informações
veiculadas. Foram estudadas 120 matérias do Jornal Nº
1, no total de 22.061,5 centímetros de coluna, e 100 matérias
do Jornal Nº 2, no total de 24.012 centímetros de
coluna. Os dois jornais foram analisados quanto a: volume de
publicação, categorias veiculadas, valorização
visual, gêneros, formato editorial, fontes principais, intermediário
da notícia e vinculação geográfica.
Esse tipo de estudo remete a questão para a necessária
formação ética e sistêmica que possa
romper os paradigmas tradicionais do racionalismo reducionista
e da fria objetividade observados nos jornais.
Para
propor a indispensável ruptura da objetividade, decidimos
organizar, também, uma pesquisa qualitativa entre os estudantes
de jornalismo. Foram distribuídos 100 formulários
no I Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, promovido pelo
Núcleo Paulista de Jornalismo Ambiental no SESC de Santos
entre 12 e 14 de outubro de 2005, com a participação
deste pesquisador na organização do evento e na
seleção dos Trabalhos de Conclusão de Curso-TCCs,
apresentados, mas o retorno foi insignificante. A maior parte
dos alunos que responderam ao questionário é da
UNESP/Bauru. A intenção era saber o que pensam os
alunos sobre o tema meio ambiente e como vêem o jornalismo
ambiental que ainda é uma novidade na maioria das universidades
brasileiras. Através da subjetividade espontânea
da maioria das respostas, foi possível constatar que os
alunos ressentem-se da falta de uma formação sistêmica
capaz de libertá-los das amarras impostas pelo sistema
tradicional, à luz da crítica que se faz ao modelo
compartimentalizado do ensino acadêmico, como se pode observar
em destacados autores, como Edgard Morin (2002) e Paulo Freire
(2005), entre outros.
Feita
a pesquisa quantitativa sobre o mercado convencional do jornalismo
e ouvidas as aspirações dos estudantes de jornalismo,
foi possível, então, ir além das constatações,
até certo ponto naturais, para mostrar como se pode fazer
um outro jornalismo, rompendo a objetividade. Assim, localizamos
modelos produzidos por estudantes da UNESP na fase de conclusão
do curso, com ênfase para o Jornalismo Literário
Avançado, uma ferramenta que se adapta, como uma luva,
ao jornalismo ambiental, por suas características de envolvimento
profissional com a fonte - mediante entrevistas de imersão
-, de investigação aprofundada e de criatividade
na narrativa sempre a partir do fato real, com direito a entrevistar
e escrever sob impacto de forte emoção. Os textos
considerados modelares são de alunos que tiveram a ousadia
de sair do lugar comum. Uma aluna - única que não
é da UNESP - dá voz ao rio de sua cidade e com isto
"escandaliza" o editor ao "convidar" o rio
para sentar-se numa roda de bar entre outros moradores antigos
do lugar (Salesópolis-SP). A partir daí o rio fala,
pensa, faz gestos...(Recusando-se a publicar a matéria,
o editor asseverou: "as pessoas não vão
entender isto"). Outra aluna foi ao encontro dos moradores
de rua de São Paulo, convivendo em dezenas de horas de
entrevistas com os usuários de um albergue, sem pressa,
para compreender a alma das pessoas que ela descreve, respeitosamente,
como "em situação de rua". Não
consegue evitar as lágrimas com as histórias que
ouve e acaba chorando junto com o entrevistado, tamanha a dor
dos excluídos. ("As pessoas mudam de calçada
quando nos avistam porque temos dificuldade para tomar banho",
lamenta-se um deles). A terceira aluna citada como modelo foi
parar no meio da mata para testemunhar como os mateiros lidam
com a natureza, com os animais silvestres, os passarinhos, imitando
o som deles para atraí-los numa reserva ambiental. Descreve
a emoção de abraçar uma árvore, o
acolhimento respeitoso da gente simples que lhe deu pouso e comida
durante os dias da reportagem. O quarto trabalho vem de um presídio
onde os preconceitos cedem lugar ao reconhecimento do talento,
da emoção e da grandeza que também existem
no coração de pessoas que erraram e que querem dar
a volta por cima e que têm esse direito. São histórias
que falam de gente e não de números ou de estatísticas.
São histórias onde o coração abre
passagem para a emoção e a diferença. São
histórias apuradas e escritas sem pressa, sem frieza, sem
distanciamento, sem objetividade. E também sem imparcialidade,
pois há momentos em que é necessário assumir
atitudes e deixar de lado a suposta neutralidade para denunciar
as injustiças. Por isto Marx diz que os filósofos
analisaram o mundo, mas chegou a hora de transformar o mundo.
Já não basta "pensar" com Descartes para
existir. Quem não quer ser "mais um jornalista",
deve escolher, optar, sentir a dor do outro. Isto é jornalismo
humanista.
Se
queremos transformar o mundo, se queremos romper os paradigmas
estabelecidos, será que não poderíamos pensar
em uma proposta de educação ambiental integrada
e permanente através do jornalismo? Para tal propósito,
convém deter-se, um pouco, na fundamentação
do conceito de integração. Podemos relatar
exemplos concretos nos quais a integração ajuda
a mostrar o mundo de outra forma, a partir de uma cultura de paz,
seja em regiões de conflito internacional, seja nos exemplos
de livros-reportagem produzidos pelo Projeto São Paulo
de Perfil, sob a coordenação da professora Cremilda
Medina, na ECA-USP, ou nas atividades de jornalismo ambiental
da professora Ilza Girardi Tourinho, na Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, seja na integração dos empresários
com as comunidades carentes através da pedagogia cidadã
presente no Projeto Mesa Brasil, do Serviço Social do Comércio-SESC.
A idéia de integração também pode
ser analisada no âmbito do Ministério do Meio Ambiente,
através da proposta de Educomunicação que
reconhece a necessidade de um jornalismo mais envolvido com o
meio ambiente e a educação popular. Concluimos com
a necessidade de ampliar os exemplos já citados e inaugurar
uma parceria permanente entre todas as entidades envolvidas e
a sociedade, com intensa participação popular, nos
moldes da Agenda-21, emanada da Rio-Eco-92.
Nossa
esperança é que as informações contidas
neste trabalho possam ter alguma utilidade para os estudantes
de jornalismo. Pretendemos atrair a atenção deles
para o problema ambiental a partir de um posicionamento crítico.
Queremos que eles estudem a abordagem sistêmica para estabelecer
as necessárias relações entre os fenômenos
que testemunharão como jornalistas. Para que possam ser
cidadãos de fato, com garra, ética, emoção
e criatividade.
Conclusão
O
jornalismo ambiental vem crescendo de importância nas últimas
décadas, tendo em vista o agravamento da crise ecológica
que desperta o interesse de toda a sociedade. Neste convite aos
estudantes de jornalismo para que voltem o olhar para a centralidade
da questão ambiental, tivemos a preocupação
de mostrar que o tema é essencialmente interdisciplinar,
o que exige uma abordagem sistêmica para a sua compreensão.
Mesmo
delimitando o objeto de estudo ao item específico do consumo
sustentável, dentre tantos outros que poderiam ser aqui
abordados, não se pode evitar o amparo de várias
disciplinas e de vários pontos de vista, num ampliado olhar
sobre filosofia, religião, sociologia, economia, midiologia,
pedagogia, psicologia etc.
Com
efeito, nem a mídia nem o ensino de jornalismo apresentam
esse viés sistêmico na abordagem do tema. A mídia
não se preocupa em educar de modo permanente para o consumo
sustentável, nem busca nenhum tipo de integração
com outros segmentos para viabilizar tal compromisso social, enquanto
a escola superior sequer está empenhada, ainda, com a introdução
de estudos de graduação e de pós-graduação
sobre educação ambiental através do jornalismo,
salvo raras e honrosas exceções.
Do
mesmo modo que ocorreu com a conscientização ecológica
universal nos idos da década de 1970, principalmente a
partir dos jovens, resta claro que, também hoje, é
a sociedade civil organizada que vem impulsionando os debates
e cobrando posições da Universidade, da Sociedade,
do Poder Público, dos Meios de Comunicação.
Entretanto, as Organização Não Governamentais
- que são incansáveis na promoção
de eventos, na divulgação de notícias ambientais
pela Internet, no apoio à publicação de livros
e teses sobre a questão, no incentivo aos TCCs sobre jornalismo
ambiental - não contam com qualquer apoio oficial em seu
trabalho. As verbas de publicidade da Secretaria de Comunicação
da Presidência da República destinam-se apenas à
mídia convencional, por se considerar, equivocadamente,
que a mídia ambiental não é vista nem lida.
Ignoram que essa mídia dirige-se a um público formador
de opinião que age em todos os países, tendo, portanto,
enorme poder de persuasão e convencimento, além
de expor idéias claras sobre um ambientalismo voltado para
a defesa da vida, em confronto com um conservacionismo ambiental
voltado apenas para a sustentação do capital e dos
grandes projetos. Nem sempre a mídia convencional "pode"
ter essa clareza, tendo em vista os inúmeros interesses
que envolvem os grandes anunciantes, entre eles a área
oficial, muitas vezes inviabilizando qualquer pauta que contenha
visões críticas sobre o atual modelo de produção,
ou sobre um consumismo exacerbado, que aprofunda a injustiça
social, sobrecarrega o meio ambiente - com a profusa geração
de lixo não orgânico - e transforma as pessoas em
consumidores psicologicamente dependentes, distanciados
da vida simples que poderia lhes trazer mais felicidade, embora
com menos anúncios para a mídia.
Cumpre
analisar outro ponto importante que é o papel do Ministério
do Meio Ambiente no Brasil. Tradicionalmente esse Ministério
opera com falta de quadros especializados e de recursos suficientes,
diante do tamanho do desafio à sua frente, além
de ser visto, pelos grandes interesses econômicos, como
fator limitante de suas ambições. Nota-se, ainda,
uma forte pressão internacional sobre as ações
do Ministério, como se viu recentemente no caso da soja
transgênica que acabou sendo plantada e colhida com apoio
do próprio Ministério da Agricultura, da Federação
Nacional da Agricultura e de outros grupos de pressão liderados
pela multinacional Monsanto, mesmo à revelia da ministra
do meio ambiente, Marina Silva.
Todavia,
no atual governo, nota-se um esforço no rumo da educação
ambiental, através de entidades de formação
vinculadas ao Ministério, das quais têm emanado boas
iniciativas como o Projeto de Educomunicação Ambiental,
envolvendo jornalismo e educação. Mesmo assim, caberia
mais apoio, por exemplo, à Assessoria de Comunicação
Social do próprio Ministério que opera com apenas
cinco funcionários, e que poderia ser uma central de pautas
ambientais a serem "sugeridas" (não impostas,
claro) a toda a mídia.
Esta
pesquisa, ao mesmo tempo que critica a falta de espaço
para a manifestação do consumidor na mídia
convencional, também relaciona as boas iniciativas que
vêm sendo realizadas em todo o mundo, seja no âmbito
dos governos nacionais (com legislação ambientalmente
correta que impõe freios à ambição
capitalista), seja na área da iniciativa privada (com empresas
que apóiam o comércio socialmente justo, aquele
que não explora crianças e nem exclui índios
e mulheres no processo de produção). Por todo o
mundo, às vezes silenciosamente, milhares de pessoas estão
trabalhando pela paz através do meio ambiente. Esse valioso
trabalho se verifica tanto no recolhimento de uma sala de aula
(através da visão sistêmica de um professor
e de seus alunos), como nas ruidosas áreas de conflitos
internacionais (sob os auspícios da ONU e de entidades
voluntárias voltadas para a paz mundial); ou ainda no âmbito
da sociedade civil, como fazem os comerciantes brasileiros, através
do projeto Mesa Brasil, gerido pelo SESC, uma entidade amiga do
movimento ambientalista. São pessoas que reconhecem o perigo
da crise ambiental, mas têm uma visão sistêmica
suficientemente ampla para abarcar todo o processo e não
apenas parte dele. Elas vislumbram a possibilidade de outro mundo,
por isto não desistem nunca.
O
outro ponto é a necessária integração
de todos os esforços para que, através da refundação
da ética - privilengiando o coletivo ao invés do
individual - se possa chegar a uma estética socialmente
justa, a estética da harmonia e da solidariedade, para
substituir o egoísmo, a violência, a prepotência,
a corrupção, a frieza do mundo.
Por
isto os estudantes de jornalismo são convidados a romper
o paradigma da objetividade, aparelhando-se com amplo volume de
boas leituras, mergulhando no aprendizado sistêmico para,
através de ferramentas como o Jornalismo Literário
Avançado, os gêneros do jornalismo, as entrevistas
e perfis de imersão, capacitarem-se a produzir um jornalismo
diferente, desapegado das estatísticas frias e dos procedimentos-padrão
do jornalismo americanizado e funcionalista. Que se possa fazer
jornalismo com emoção e com garra, sem jamais fazer
concessões à ética e ao comportamento moral,
privilegiando as minorias e os excluídos, buscando suas
fontes lá onde o povo está com sua dor, sua alegria,
suas conquistas, seus sofrimentos; reconhecendo que nem sempre
a verdade está nos palácios e nas salas com ar condicionado.
Que nossos jornalistas possam aprender a "reconhecer"
o mundo, com seus fenômenos complexos, para, só então,
"compreendê-lo", como ensinam Paulo Freire e Edgard
Morin, entre outros grandes nomes. Que o ensino de filosofia e
de ética sejam valorizados na área acadêmica,
que os estudantes sejam ouvidos quando das reformas curriculares,
que o ensino se abra para o mundo sem fronteiras e que os estudantes
adquiram condições de estar no mundo para julgá-lo
e não apenas para presenciá-lo, se realmente querem
transformá-lo, como deseja Marx.
Por
fim, que nossos futuros jornalistas compreendam a importância
do seu papel na sociedade e que não fujam desta missão.
Pelo contrário, que se atirem a ela a partir do estudo
sério e acurado das grandes questões que interessam
a todos, entre elas a questão ambiental que não
envolve, naturalmente, apenas o consumo sustentável aqui
explorado para efeito de delimitação acadêmica
da pesquisa. Trata-se, isto sim, de um processo em permanente
transformação visando estudar as relações
entre o homem, a natureza e o Ser Cósmico que dá
sentido à própria Vida e que cada um nomina, na
intimidade das suas convicções, segundo o seu coração.
Que
tenham o amor de Che Guevara ("El verdadero revolucionario
es animado por fuertes sentimientos de amor. Es imposible pensar
un revolucionario autentico sin esta cualidad") e a paixão
de Camilo Torres (a respeito do qual se disse, como já
citado: "Jogou-se inteiro porque entregou tudo. A cada
hora manteve com o povo uma atitude vital de compromisso, como
sacerdote, como cristão e como revolucionário").
Que nossos jovens voltem o seu olhar para a América Latina
cujas elites insistem no "crescimento imitativo" que
permite a poucos viverem como que em "ilhas da fantasia"
enquanto milhões não têm moradia, saneamento
básico, água potável, atendimento à
saúde, à infância, aos pobres e aos excluídos.
Que estudem Jesus Martin Barbero,1987 ("A chave para a
América Latina é adotar a tecnologia dos países
ricos sem perder de vista a realidade regional").
Que
nossos jovens também se voltem para a África, um
continente humilhado, vilipendiado, roubado e atirado à
própria sorte para que irmãos se matem no desespero
das guerras fratricidas que não são gratuitas, que
têm um motivo, que foram geradas no ventre malévolo
da exploração capitalista das grandes potências
agora voltadas para o combate a um inimigo sem cabeça e
que não se pode ver, que é o terrorismo internacional,
uma ameaça para todos, resultante da ganância exclusivista
de poucos.
Tudo
o que desejamos é que nossos jovens, nossos estudantes
de jornalismo, não se voltem contra a sociedade de onde
vieram, que não traiam jamais o grande ideal que os animou
a serem jornalistas, que tenham fé na humanidade, que possam
compreender a complexidade do mundo e que jamais percam a esperança
de transformá-lo, para que seja mais humano e mais justo.
Para
terminar, uma palavra de Marx, a mostrar a necessidade de rever
as estruturas, de não aceitar o que está dado: "La
teoria materialista de que los hombres son producto de las circunstancias
y de la educación, y de que, por tanto, los hombres modificados
son producto de circunstancias distintas y de una educacion distinta,
olvida que las circunstancias se hacen cambiar precisamente por
los hombres y que el próprio educador necessita ser educado".
(Tercera Tesis sobre Feuerbah).
Bibliografia
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*Este artigo é um breve
resumo da tese "Jornalismo Ambiental e Consumo Sustentável
- Proposta de Comunicação Integrada para a Educação
Permanente", 324p., defendida sob orientação
do professor Luiz Barco - nível de Doutorado - pelo professor
de jornalismo da Unesp-Bauru-SP, Pedro Celso Campos, na Escola
de Comunicação e Artes-ECA, da USP, em 28.03.2006.
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Pedro Celso Campos
Jornalista, professor de Jornalismo da Unesp//Bauru, e doutor
em Comunicação pela Escola de Comunicações
e Artes da USP.
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