Ano I - Nº 01 - Abril de 2007

:: A vida não é doce pra quem trabalha nos canaviais

 

      Mortes por estafa, nenhuma garantia trabalhista, condições desumanas de trabalho e inclusive trabalho escravo. Esta é, infelizmente, a realidade de milhares de canavieiros (e outros trabalhadores rurais) abandonados por esse Brasil afora, mesmo na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, considerada a Califórnia brasileira.

      Foi, certamente, por conhecer a situação dramática em que vivem os nossos “bóias frias” que os sindicatos rurais e a mídia reagiram imediatamente à fala do presidente Lula, que no seu arroubo lingüístico particular chamou os usineiros de “heróis”.

      Há, como diz o caboclo, males que vêm para o bem e, sem desejar, o presidente acionou a sirene dos direitos sociais no campo.

      As notícias sobre abusos nos canaviais não são recentes e não constituem surpresa. Os demandos de usineiros inescrupulosos são conhecidos e, apesar das autuações, pouco se tem feito para alterar esse quadro dramático. Em setembro de 2006, o Estadão trazia matéria, assinada pelo repórter Jair Aceitumo, sobre 230 bóias frias encontrados em condições precárias em usinas de Pederneiras, Mineiros do Tietê e Dois Córregos, no interior de São Paulo. Antes disso, em maio de 2006, a Folha de S. Paulo, em matéria assinada pela jornalista Juliana Coissi, já mencionava irregularidades encontradas em empresas da região de Piracicaba e Ribeirão Preto. O jornal O Globo, em março de 2007, não perdoava os “heróis de Lula”, multados por exploração de trabalhadores (chegavam a ficar de 12 a 14 horas sob o sol, sem água potável, alimentação adequada, equipamentos de proteção e não tinham registro em carteira).

      Em São Paulo, cerca de 20 canavieiros já morreram, nos últimos 3 anos, durante o trabalho nas fazendas paulistas mas os usineiros, com era de se esperar, fazem promessas de melhora, acionam seus padrinhos políticos e continuam confiando na lentidão na Justiça para permanecer impunes. Mesmo grandes empresas têm terceirizado o processo de contratação de mão-de-obra e submetido os seus trabalhadores a situação considerada precária pelas autoridades.

      Reportagem publicada na Folha de S. Paulo, de 22 de março de 2007, assinada por Maurício Simionato, informa que “dezenas de trabalhadores rurais sem equipamentos de segurança foram flagrados pelos fiscais do Ministério do Trabalho e procuradores do Ministério Público do trabalho na Usina Nova América, uma das maiores produtoras de açúcar e álcool do país, responsável pela marca de açúcar União.”.

      O festival de maldades dos “heróis” de Lula só vem reforçar a tese de que há muito a se fazer nesta área e que é preciso estar atento ao que acontece no campo. As exportações de produtos da agroindústria , festejadas pelas equipes econômicas e pela mídia, muitas vezes escondem irregularidades e afrontas inexplicáveis aos direitos humanos.

      É preciso ressaltar que essa situação dramática não pode ser generalizada porque há empresas que cumprem suas obrigações, mas todo cuidado é pouco. A expansão dos canaviais em função da política de incentivo ao etanol, além dos prejuízos que pode causar ao meio ambiente e à saúde, não pode ser feita à custa da qualidade de vida e da degradação do trabalho dos canavieiros.

      A imprensa precisa definitivamente acordar para o problema dos direitos sociais no campo, seguir o exemplo da jornalista Miriam Leitão que, em coluna do dia 22 de março de 2007, no jornal O Globo, lembrava das “qualidades” de alguns dos heróis do presidente. Resgata histórias de grilagem no Pará, destruição de nascentes de rios, maus tratos e outros episódios de arrepiar os cabelos.

      Para esses “heróis” sem pátria, o único troféu possível é cana mesmo, um mal cheiroso xilindró (que não deve ser pior do que os locais onde alojam os trabalhadores) e uma boa sova no lombo. Com essa gente não dá mesmo para se chegar ao Primeiro Mundo.

      Que o presidente, melhor informado, não continue fazendo, como os anteriores, favores para os usineiros heróis. Seria melhor, pelo menos para a nação, que exigisse deles o pagamento de dívidas imensas. Heróis tão caloteiros não se encontram em gibi algum.

 
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