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A safra é recorde , mas a mesa está pobre

Wilson da Costa Bueno*

      Quem ouve ou lê sobre a safra brasileira de 2003, sobretudo quando a fonte é o Governo, logo se entusiasma. Ao que parece, vem aí um novo recorde: 115,2 milhões de toneladas de grãos e, como era de se esperar (essa é, aliás, a cantilena de autoridades do setor agrícola, repetida também por grandes exportadores), a mesa do brasileiro estará mais farta. Não é verdade?
      Não, não é. Aí está mais uma mentira do modelo que aí está, porque ele contempla produtos para exportação, muitas vezes menos presentes na dieta da população em detrimento das culturas alimentares básicas. Logo, produzir mais não significa comer mais e melhor.
      Vamos aos dados. Se é verdade que a produção brasileira de grãos está crescendo (e está mesmo), esse crescimento se dá a partir de algumas culturas, como principalmente soja e milho. Para se ter uma idéia do equívoco, basta perceber que cerca de 93 milhões das 115 milhões de toneladas de grãos previstas são de soja e milho, restando ao feijão e arroz (é o que o brasileiro come todos os dias, não é?) menos de 14 milhões de toneladas. Quer um dado mais: a previsão, para a safra atual, é que a produção de arroz seja praticamente igual ao da anterior e que a de feijão seja 9,3% maior, contra uma variação positiva de 21,2% do milho e de 20,1% da soja. Do jeito que a carroça vai, cada vez mais a porcentagem dessas duas únicas culturas na produção total de grãos será maior e, de duas uma, ou você passa a comer soja (não é ruim, sabia?) ou se especializa em pamonha, curau, bolo de milho.
      Mas que tal incluir outros dados nesta análise? Vamos examinar a evolução dos preços, por exemplo. Afinal de contas, ninguém (a não ser quem produza para consumo próprio) consegue arroz, feijão etc de graça.
      Pois é, como diz o caboclo, aqui a coisa pega. Você sabia que o preço do arroz para o consumidor subiu de abril de 2002 a abril de 2003 cerca de 49,03%; o feijão, 73,05%; o milho, 24,73%; e a soja, incríveis 73,46%? Logo, tem algo errado na lógica deste modelo: aumenta a oferta e aumenta o preço. Quanto mais se produz, mais difícil fica levar para a mesa. Gozado, não?
      Tem saída?
      Certamente, existe saída, mas as regras do jogo não podem ser essas. Se ficarmos à mercê do mercado internacional, buscando incentivar culturas que têm preço bom lá fora, estaremos, a curto e a médio prazos, aumentando o hiato que separa a produção das culturas de exportação e as alimentares básicas. Isso porque os próprios agricultores que cuidam do arroz , feijão acabam migrando para soja e milho, já que o mercado interno é instável, o dinheiro está curto e ninguém quer correr o risco de ficar com "o mico na mão". Além disso, o clima às vezes não ajuda e há quebra de safras. Logo, cria-se um círculo vicioso e a mesa do brasileiro, na era do Fome Zero, tende a ficar vazia.
      Excelente matéria, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, de 11 de maio de 2003, página B4, assinada pelos jornalistas Márcia de Chiara e José Maria Tomazela, trata da questão com muita propriedade. Mostra que regiões do interior de São Paulo, antes grandes produtoras de arroz e feijão, estão optando pelos produtos cotados em dólar e que atendem ao mercado internacional. E aí vale a lógica: menor oferta, preços em disparada. O preço da cebola, por exemplo, só nos 4 primeiros meses do ano,subiu 109% e a batata, 114%, como explica na reportagem o prof. Manuel Payes, coordenador do curso de Economia da UNISO - Universidade de Sorocaba.
      Apesar das divergências profundas do Estadão com o MST, no mesmo dia, à página A10, o jornal traz uma outra matéria, não conectada à citada, com o título MST quer fim do modelo agrícola exportador, assinada pelo competente Roldão Arruda. Nela, os dirigentes do Movimento dos Sem-Terra criticam o modelo agrícola baseado na exportação, com a convicção de que a expansão do agronegócio não significa mesa farta.
      O professor titular de Economia da USP, Fernando Homem de Mello, sem dúvida uma voz de respeito, que comparece como fonte na reportagem de Roldão Arruda, não concorda com o MST , julgando ser possível conciliar a agricultura de exportação e a familiar. Apesar dos argumentos do professor (" o agronegócio é o principal responsável pelos saltos positivos da balança comercial" ; "as críticas do MST são ideológicas"), é preciso olhar , com mais atenção, para o que está acontecendo por aqui.
      Não é possível criticar o modelo, se olharmos a partir de sua lógica , mas, se nos distanciarmos um pouco, o panorama se altera bastante. Neste sentido, é importante reproduzir um trecho da matéria do Roldão Arruda, exatamente aquela que incorpora um dos "companheiros" do Partido de Lula:
      "O agrônomo Gerson Teixeira, assessor do núcleo agrário do PT no Congresso e autor de estudos usados pelo MST, pensa de modo diferente (do de Fernando Homem de Mello). Para ele, o País está se transformando num mero exportador de commodities: exportamos volumes cada vez maiores, com receitas menores. Ele reconhece os avanços obtidos pelos grandes agricultores nos métodos de produção, mas ressalva: todo mundo só fala disso, mas esquece o custo social, com o desemprego e a concentração de terras, sem falar no custo ambiental."
      Se o Governo continuar achando, influenciado pelo lobby dos grandes exportadores, que as críticas do MST (e que, verdadeiramente, não partem e nem se encerram nele) não têm sentido e não se dispuser a avaliar este modelo, que penaliza o brasileiro, a mesa continuará pobre.
      Não se trata de buscar fantasmas por aí (sair caçando os especuladores!) porque, com certeza, é o modelo que tem um furo. Parodiando o poeta, havia um furo no meio do modelo, no meio do modelo havia um furo. Vamos tapar o buraco?

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
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