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O discurso verde e a hipocrisia sem cor alguma

Wilson da Costa Bueno*

     Tem empresa convocando para uma coletiva que proclama a sustentabilidade ambiental dos transgênicos. Tem empresa de computadores fazendo a apologia dos equipamentos verdes. Tem autoridades insistindo na redução do desmatamento na Amazônia. Tem o lobby do amianto se esgoelando para convencer-nos de que ele é inofensivo para a saúde.
      Tem de tudo porque a hipocrisia é a tônica de determinados segmentos empresariais, de representantes do parlamento brasileiro e de nichos específicos dos governos (municipal, estadual, federal) quando se trata de levantar a bandeira da sustentabilidade.
      A imprensa já deveria estar vacinada contra essa investida, mas infelizmente ainda permanece vulnerável a este discurso vazio que inclui agrotóxicos (é veneno, não remedinho de planta), plantação de florestas de eucalipto (se isso é floresta, Papai Noel existe mesmo!), mineradoras e seus buracos imensos (que sustentam seus lucros formidáveis) e até a indústria tabagista (que fabrica e vende drogas – eu sei são lícitas, mas são drogas).
      O mercado (ah, o santo mercado!) incorpora, depois de desvirtuar, avacalhar sem dó, conceitos que precisariam ser preservados, como o de sustentabilidade, responsabilidade social, cidadania etc.  Mas é assim mesmo (organizações sem alma querem sempre tirar vantagem) e os jornalistas e veículos deveriam ser mais espertos e não agirem como “laranjas”, reproduzindo discursos cujo único objetivo é aumentar o lucro, manipular a opinião pública e promover o processo sujo de “limpeza de imagem” de inúmeras organizações, governos e parlamentares.
      O marketing verde, de há muito, vem ganhando terreno no sistema global de comunicação das organizações, seduzindo empresas predadoras, governos omissos, agências de comunicação, propaganda e Relações Públicas que, como advogados de porta de cadeia, existem apenas para servir o cliente (faturar grana, se possível em cédulas verdes), sem qualquer compromisso com o interesse público. Algumas campanhas publicitárias cheiram mal, causam enjôo tamanha a hipocrisia de que se revestem para vender organizações a peso de ouro quando, sabemos todos, elas não valem um dólar furado (Vale isso?).
      Os bancos, que no Brasil mantêm o maior spread do mundo, adotaram também o discurso verde e estão desfilando por aí como se fossem os salvadores do planeta ao mesmo tempo em que praticam juros escorchantes e submetem cidadãos e empresas fragilizados pela crise (que baita marola, hein?) a constrangimentos financeiros insuportáveis. Há exceções, a gente sabe, mas exceções são apenas exceções e o jornalismo brasileiro deveria estar mais atento à regra, investigando pesado, mantendo a sua independência e o seu espírito crítico.
      O combustível continua sujo, matando milhares de pessoas em nossas metrópoles; o solo, o ar, a água continuam contaminados (cada vez mais) pelo derrame irresponsável de produtos agroquímicos e tudo continua como dantes, apesar do falatório.
      Está na hora de desmascarar esta situação, colocar tudo em pratos limpos, dar um puxão de orelhas em quem insiste em vender uma imagem que não está sintonizada com a realidade. Quem realmente acredita na força da sustentabilidade, na necessidade de se adotar uma postura socialmente responsável e domina os conceitos em sua plenitude não pode ficar indiferente a esta agressiva investida de organizações e governos.
      Jornalistas e veículos efetivamente sérios (o mercado é uma geléia geral, talvez verde para acompanhar o modismo) precisam estar mobilizados para repudiar esta hipocrisia e este cinismo empresarial e político. É hora de arregaçar as mangas, de cerrar fileiras para combater o marketing verde, esta proposta falsa, manipulatória, que continua crescendo a olhos vistos sob a complacência de todos nós.
      A Folha de S. Paulo (04/02/2009) trouxe como matéria de capa de seu Caderno de Informática a estratégia infame de empresas eletrônicas que despacham para o Terceiro Mundo suas sucatas infestadas por produtos tóxicos. Como acentuava o repórter Bruno Romani, o “Brasil faz parte do lixão high-tech da Califórnia” e só em 2006 recebeu quase 1.200 toneladas de lixo eletrônico dos EUA. Como não temos legislação específica para impedir a chegada desta “trolha” insustentável, ela entra fácil e polui os nossos ambientes de trabalho e os locais de descarte, depois da sua planejada e rápida obsolescência.
     É assim que a coisa funciona e bota encrenca maior se focarmos a indústria de celulares, a queridinha da mídia pelos seus altos investimentos em publicidade.
      A mídia brasileira, apesar também do seu discurso verde e da sua pretensa disposição para defender a sustentabilidade e a responsabilidade social, é por excelência predadora porque, na prática, vive a reboque de anunciantes sem escrúpulos. Tem o discurso da “criança esperança” mas não passa de um “big brothter”, com sacanagens implícitas e explícitas alavancadas em horário nobre e que avançam pela madrugada no pay-per-view. Tem empresários que constróem tetos de igrejas que desabam e muitos outros espalhados pelo País que não passam de “testas-de-ferro” de políticos com intenções excusas (há exceções, eu sei, mas de novo exceções são exceções). Essa mesma imprensa que justifica e legitima as campanhas para tornar as nossas crianças obesas (enquanto o Palhaço idiota ri em exibições midiáticas nos shoppings centers) e confunde autorização para fazer a apologia do álcool com liberdade de expressão.
      Se for convidado para uma coletiva sobre transgênicos e sua sustentabilidade ambiental (aquela história de que usa menos agrotóxico, seqüestra mais caborno etc), desconfie. Investigue se a empresa que legitima essas informações não é “pau mandado” de empresas de biotecnologia (afinal de contas, parece que as pesquisas que ela faz  sempre batem na mesma tecla, não é mesmo?). Veja só: recebi em meu e-mail um release para uma coletiva que irá divulgar uma pesquisa sobre “benefícios ambientais dos transgênicos” distribuído por uma empresa de comunicação que têm entre seus principais concorrentes a maior empresa de biotecnologia. Você acha tudo isso uma coincidência? Puxa, amigo, amiga jornalista, está na hora de abrir os olhos.
      Não acredite, em princípio, em nada disso. Não confunda jornalismo com outra coisa. Abra mão desta postura transgênica que quer enfiar goela abaixo uma verdade que não se confirma na prática. Não caia nessa. Aí tem galinha com dente, gato na tuba. Cuidado com essa mistificação em nome de lucros formidáveis de grupos monopolistas (a área de sementes está dominada por grandes corporações).
      O jornalismo brasileiro precisa praticar a diversidade, não a transgenia. Como sempre digo, desconfie sempre (e muito) de empresas que têm santo no nome. E arrume um tempinho para ler “O mundo segundo a Monsanto”, de Marie-Monique Robin. Vai entender melhor o que estou falando. Mais: irá ficar de boca aberta e olhos esbugalhados. Em vez de ir a determinadas coletivas, leia um pouco. É mais esclarecedor. Não compactue com a hipocrisia e o cinismo em nome da santa sustentabilidade.

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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