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Jornalismo, “marketing verde” e transparência

Wilson da Costa Bueno*

     A pauta ambiental tem, gradativamente, ocupado mais espaço e tempo na mídia brasileira, o que, à primeira vista, se constitui em um fato novo e promissor, a ser saudado com  entusiasmo por aqueles (em tese, deveríamos ser todos nós) que estão comprometidos com o futuro do planeta. Mas (sempre há um “mas” neste mundo complexo e controvertido em que vivemos) necessariamente quantidade não se traduz em qualidade.
      Uma cobertura ampla não significa cobertura qualificada e os exemplos se contam às dezenas. Os cadernos alentados de política, economia e mesmo de esportes, que caracterizam a  imprensa nacional,  não têm garantido, para essas áreas, uma cobertura exemplar. Muito pelo contrário, sobretudo  se os critérios de análise incluírem indicadores associados à cidadania, como a pluralidade de fontes,  a independência em relação  aos interesses políticos e comerciais, a exigência de limites definidos entre informação e marketing e assim por diante.
      A qualificação da cobertura ambiental passa, obrigatoriamente, pela capacitação dos jornalistas, pela conscientização de editores e empresários da mídia, pela independência editorial dos veículos, pela vigilância com respeito às fontes (cada vez mais comprometidas nesta área com os grandes interesses empresariais e políticos) e inclusive pela educação da audiência (leitores, telespectadores, ouvintes e internautas). Considerados estes aspectos, estamos ainda longe de atingir um patamar ao menos razoável para a cobertura da temática ambiental em nosso País.
      Em primeiro lugar, manipulamos os conceitos inadvertidamente e, em alguns casos, de forma propositalmente irresponsável. Estamos presos a uma perspectiva de meio ambiente que não nos inclui, descontextualizada, que distancia o meio ambiente da economia, da política, da cultura e da sociedade, muitas vezes reduzindo-o à contemplação de situações específicas e aparentemente longínquas, como o desmatamento da Amazônia, o degelo na Antártida e a extinção das baleias. Confundimos sustentabilidade com otimização dos negócios, desenvolvimento sustentável com crescimento econômico e nos colocamos reféns de dados e estatísticas gerados por governos e empresas que apenas desejam legitimar suas mazelas em relação ao meio ambiente e aumentar o seu poder e seus lucros. Por isso, continuamos falando em “floresta de eucaliptos” (que floresta é essa que só tem valor quando derrubada?), “produção de minérios” (ninguém produz nada, só extrai!) e não percebendo, apesar do discurso contrário, o vínculo entre as empresas de biotecnologia, as empresas agroquímicas, as de sementes e as de saúde, e agora com um olho gordo (obeso) sobre as que produzirão biocombustíveis. Afinal de contas, apesar do discurso contrário aos agrotóxicos (transgênicos usam menos agrotóxicos, repetem elas, o que não é sempre verdade) elas ganham ainda (ou não?) dinheiro, muito dinheiro com os pesticidas em geral. Afinal de contas, glifosato é  remédio ou veneno, mata só pragas daninhas ou gente também?
      Em segundo lugar, abrigamos fontes que nos são “vendidas” por agências e assessorias a serviço de  interesses predadores, muitas vezes hipocritamente legitimadas por créditos que remetem unicamente à titulação no campo da ciência (professores doutores, prêmios Nobel, presidentes de sociedades científicas etc) e escondem outros vínculos comprometedores. Temos deixado de perceber que pesquisadores ou cientistas de origem (o biólogo que assina coluna na página de ciência do Estadão por exemplo ou um economista que preside a maior entidade dos usineiros) são, agora, na verdade, empresários ou executivos comprometidos até o fio de  cabelo com as suas empresas e os seus parceiros comerciais. O chefe de Pesquisa & Desenvolvimento  que defende e refina a tecnologia “round-up” é cientista ou funcionário de uma corporação? Quando ele fala para a imprensa, fala em nome de quem? Seria capaz de pensar por conta própria ou a sua auto-censura o remeterá obrigatoriamente a defender os transgênicos? É justo acreditar em quem se empenha e é pago para defender determinadas posições e interesses?
      A imprensa tem acreditado que as raposas podem tomar conta impunemente dos galinheiros. Participa de coletivas mal intencionadas, reproduz releases propagandísticos (no mau sentido), delicia-se com a voz melosa de fontes prestigiados que não passam de bocas alugadas de empresas e entidades.
      Finalmente, pela sua condição de campo inter e multidisciplinar, complexo, as ciências do meio ambiente exigem dos que nela militam e dos que as cobrem um tempo maior de maturação. Devemos ter a humildade necessária para concluirmos que temos ainda muito a aprender nessa área e que o aprendizado nos obriga, nesse campo que pode estar minado por interesses de toda ordem, a uma dose maciça de ceticismo. Suspeitar das fontes, suspeitar das verdades contundentes, suspeitar daqueles que nos entregam informações de mão beijada e que preconizam visões cinicamente otimistas (“os transgênicos vão matar a fome do mundo”, “a tecnologia vai libertar os homens”, “os biocombustíveis são a salvação do planeta” etc etc).
      A cobertura ambiental qualificada pressupõe o abandono do “jornalismo light”, louquinho para acreditar em milagres e indulgências (termo feliz cunhado por Marcelo Leite em artigo recente no Caderno Mais, da Folha) e que tem aderido vigorosamente ao “marketing verde” . O jornalismo ambiental autêntico deve constituir-se antes de tudo em uma militância cívica (que nada tem a ver com militância político-partidária ou anarquista). O compromisso com o meio ambiente não deve se reduzir ao plantio de árvores ou em comer docinhos orgânicos, ainda que estas atitudes possam ser incentivadas. O jornalismo ambiental não deve tapar as feridas abertas com “band-aid” ou imaginar que elas cicatrizarão com “merthiolatte” porque a realidade é muito mais dura e mais ardida. A solução para o “imbróglio” ambiental em que nos metemos exige uma cirurgia de alto grau de complexidade e a sociedade (e os jornalistas) não deveriam acreditar que as mudanças poderão ser feitas sem dor ou sacrifício. Aqui é necessário bisturi, não cotonete.
      O Congresso de Jornalismo Ambiental, que se realiza esta semana no Rio Grande do Sul, certamente partirá desta realidade e representa um convite para o debate e para a mobilização.
     É preciso, urgentemente, que os jornalistas abram mão de sua zona de conforto, se efetivamente estiverem dispostos a contribuir para a mudança. O jornalismo ambiental precisa inspirar-se no verde da floresta, que tem cheiro e identidade. O verde do marketing praticado por determinadas organizações é falso , insosso, insípido e inodoro, tem o vínculo nefasto com a monocultura, com a afronta à biodiversidade, com os que apenas enxergam o meio ambiente como oportunidade de negócios ou como entrave ao desenvolvimento.
      O jornalismo ambiental precisa estar radicalmente comprometido com a superação das desigualdades, com a alteração dramática dos padrões de consumo, com a preservação dos recursos naturais, com soluções que não excluam as minorias e que respeitem a diversidade.  Como dizia o professor Paulo Freire, mudar é difícil, mas é possível. Vamos nessa?

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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