Há pessoas e governos que demoram
muito para abrir o olho e, quando isso acontece, se surpreendem
com o cenário que está à sua frente.
No fundo, é isso que ocorre agora com o mercado de
adubos e fertilizantes, absolutamente oligopolizado, e que
representa uma ameaça séria à nossa
produção agrícola.
Qualquer especialista sabe de cor o final
da história: um país, como o Brasil, que se
destaca na produção de alimentos necessita,
obrigatoriamente, de determinados insumos e não pode
se dar ao luxo de permanecer refém de fornecedores
internos e externos que possam provê-los. Mas foi
isso que aconteceu e agora as alternativas para superar
o impasse não são nem baratas nem rápidas.
Pelo menos (ainda que tarde), o Governo abriu
os olhos e concluiu, sem muito esforço (só
não via quem não tinha olhos para ver!) que
a Bunge, a Cargill e a Yara controlam o mercado nacional
e que podem não estar capacitados ou dispostos a
contribuir para a solução do problema. Logo,
o impasse está colocado e é de difícil
encaminhamento.
Não é de agora, sempre foi
estratégico (como é no caso do petróleo),
dispor internamente de uma produção que dê
conta de elevada porcentagem da nossa demanda (fala-se em
até 85% da demanda de nitrogenados e de 60% da demanda
de fosfatados) . Sem isso, poderemos estar, num momento
de crise (e o mundo tem atravessado nos últimos anos
crises de toda ordem com alguma frequência), num beco
sem saída: querer, precisar produzir e não
ter como superar gargalos imensos.
O que temos assistido (e é contraproducente
chorar pelo leite derramado) é o aumento brutal do
preço dos fertilizantes (mais de 100% em dois anos)
e nenhum indicativo no horizonte próximo de que esta
sangria de recursos irá estancar.
Há algumas soluções
à vista: buscar novos parceiros, estimular a produção
(lá vem subsídio de novo), taxar os produtos
importados (outros países fazem isso) para proteger
o desenvolvimento das jazidas nacionais e assim por diante.
O Governo está convocando a Embrapa, a Vale, a Petrobrás
com o objetivo de alavancar a pesquisa e a produção
nessa área, mas sabe de antemão que irá
conviver com o cenário desfavorável ainda
por um bom tempo.
Vivemos sempre correndo atrás do prejuízo
e está na hora de acordarmos para a necessidade de
estabelecermos políticas de médio e longo
prazos para setores estratégicos como a agricultura,
a produção de medicamentos etc.
Quando se perde o bonde da história,
corre-se o risco de ficar a pé. Como diz o ditado,
basta cochilar que o cachimbo cai ou ainda outro: agora,
Inês é morta.
Não adianta apenas o discurso sobre
a importância do agronegócio, é preciso
criar condições para que a agricultura brasileira
possa competir em igualdade num mercado bastante competitivo
e, ao mesmo tempo, repleto de medidas protecionistas, subsídios
indecorosos etc. Comecemos por espantar os oligopólios.
O mercado de adubos e fertilizantes é um deles e
do jeito que a carruagem vai, quando o Governo acordar,
vai perceber (não percebeu ainda?) que está
em curso um poderoso monopólio de sementes, tão
nocivo quanto esse.
Olho vivo com algumas corporações.
Elas não estão brincando em serviço
e jogam pesado. Não tem qualquer compromisso com
o interesse público. Adubar praga nunca foi uma boa
pedida.