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Mídia, agronegócio e insustentabilidade

Wilson da Costa Bueno*

     Uma análise, ainda que ligeira, da cobertura do agronegócio pela mídia nacional evidencia, de imediato, dois problemas fundamentais: a área plantada é absolutamente acanhada e os produtos denotam qualidade discutível.
      A área plantada em jornalismo tem a ver com o espaço dedicado ao agronegócio de maneira geral. Se examinarmos os nossos principais veículos, perceberemos, com facilidade, que o agribusiness ocupa um espaço inferior ao dos setores industrial e de serviços, um cenário  que conflita com a importância do agronegócio para a economia brasileira.
      Poucos são os veículos que editam suplementos ou mantêm editorias focadas nas questões rurais  e a situação é mais dramática quando se contempla o rádio e a televisão. Aí, com algumas exceções ( Globo Rural, Canal Rural e programas locais coordenados por serviços de extensão rural), o setor rural e o agribusiness em particular são praticamente ignorados.
      A maioria das empresas do agronegócio têm se mostrado tímidas em comunicação, o mesmo ocorrendo com as empresas estaduais de pesquisa agropecuária, as secretarias de agricultura e as universidades que formam profissionais para o setor. Se as principais fontes da área não se mostram pró-ativas para gerar boas notícias, a colheita não pode mesmo ser generosa. As exceções ficam por conta das empresas produtoras de insumos (as que se situam no “antes da porteira”), como as agroquímicas, de sementes, de implementos agrícolas etc, que costumam praticar um marketing agressivo e empreendem um lobby poderoso para resguardar os seus interesses.
      Pode-se afirmar que existe, efetivamente, uma massa crítica pouco expressiva no jornalismo em agribusiness, fruto da pouca atenção que os cursos de jornalismo dedicam à capacitação nesta área e da falta de iniciativa das empresas e veículos para estabelecer parcerias para a formação de profissionais especializados.
      A expansão da área plantada depende, portanto, de uma ação agressiva e bem coordenada dos agentes do agronegócio  no sentido de sensibilizar os veículos de comunicação e de subsidiá-los com informações relevantes. Inclui, obviamente, um esforço para capacitação dos profissionais de imprensa  e de apoio ao ensino e à pesquisa focados na comunicação em agribusiness.
      A qualidade dos produtos na comunicação (e, particularmente, no jornalismo) em agribusiness está intrinsecamente associada à perspectiva (em geral equivocada) que os comunicadores têm do setor.
      A cobertura da área denota, facilmente, que os jornalistas (salvo honrosas exceções)  não dispõem de uma visão abrangente do agronegócio ,  não manipulam os conceitos básicos (confundem plantação de eucaliptos com floresta, chamam agrotóxicos de defensivos agrícolas etc), comportando-se como meros repassadores das informações oriundas das corporações que subjugam o mercado.  Essa perspectiva pouco crítica torna a mídia refém dos grandes lobbies do setor e contribui para a consolidação de uma cobertura que privilegia as vertentes econômica e técnico-científica em detrimento da vertente sócio-cultural.
      O setor rural é visto pela mídia como um espaço de produção de riqueza (geralmente associado aos grandes grupos) e não como um ambiente rico em relações sociais e pródigo em manifestações culturais que têm contribuído para moldar a identidade brasileira.
      A imprensa brasileira, por isso, faz a apologia do modelo exportador , dá pouca atenção à agricultura familiar e vê a agricultura orgânica como uma excentricidade. Destaca , acriticamente, os aumentos das safras de grãos, mas pouco questiona sobre o aumento dos preços dos produtos básicos que fazem parte da mesa do brasileiro. Esvazia e despolitiza o debate sobre a reforma agrária, deslocando-o para as páginas policiais, não dá voz aos pequenos produtores e às ONGs que atuam na área, e, com dificuldade, consegue visualizar a força das cooperativas rurais.
      Os meios de comunicação insistem em não trazer a pauta ambiental para a cobertura do agribusiness, não estabelecendo conexões entre o modelo que privilegia as monoculturas para exportação e afronta à diversidade brasileira. Não denunciam a concentração abusiva em setores estratégicos, como a de produção de sementes, e fecham os olhos à devastação de imensas áreas para a produção de commodities voltadas para o mercado externo. Mostram-se deslumbrados com as estatísticas oficiais e deixam de exercer um papel importante na discussão sobre o consumo acelerado dos recursos naturais. Não têm lembrado, como seria necessário, que o agronegócio seqüestra 70% da nossa água doce e a desperdiça irresponsavelmente em seus sistemas de irrigação. Não têm denunciado, como era de se esperar, a contaminação progressiva do ar, do solo e da água pelos agrotóxicos e o uso degradante do trabalho escravo. Têm proclamado, como o presidente Lula, os empresários como os verdadeiros heróis do agronegócio (evidentemente alguns merecem este elogio, mas outros dele se apropriam ilegitimamente), e ignorado os bóias-frias que morrem de estresse no trabalho desumano do corte da cana. Colocam-se ao lado das empresas que devastam o cerrado e as florestas e estigmatizam os indígenas e os caboclos que reagem a essas agressões.
      A cobertura do agronegócio  precisa ser ampliada, mas esta conquista de espaço na mídia deve pautar-se pela qualidade. Ela precisa agregar valor às matérias que produz , fugindo do processo de commoditização da informação. Não deve confundir rural com agronegócio porque o universo do campo não se reduz à perspectiva econômica.  Deve, sobretudo, libertar-se do oficialismo das fontes e das pautas que a tem tornado cúmplice dos grandes interesses.
      O jornalismo em agribusiness precisa, com urgência, atingir um novo patamar e conquistar novas fronteiras. Seu perfil atual - transgênico, celulósico e agroquímico, comprometido com o avanço das monoculturas e com a insustentabilidade, está contribuindo para o surgimento de uma nova praga – o marketing verde, cada vez mais difícil de controlar.

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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