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Jornalismo, agronegócio e crises plantadas

Wilson da Costa Bueno*

     A imprensa, e por extensão a opinião pública, tem proclamado, sem qualquer espírito crítico, o sucesso do agronegócio, sem se dar conta de que, como toda atividade produtiva, ele está à mercê das forças do mercado e particularmente de lobbies promovidos por grupos e corporações interessados em manter os seus privilégios.
      Repete-se aqui o ditado: o uso continuado do cachimbo deixa a boca torta. E assim se fez. A imprensa em agronegócio vive com a boca torta.
      Hoje, com a crise que derrubou a nossa porta (ele deu várias batidinhas antes para chamar a atenção, mas ninguém lhe deu bola!), a mídia acordou para o problema e agora exagera com chamadas e manchetes sobre as agonias de produtores e os prejuízos das empresas agroindustriais, como se tudo estivesse ocorrendo intempestivamente, um verdadeiro tsunami agrícola.
      Nada disso. Esta crise já foi plantada há algum tempo e agora estamos apenas colhendo os “pepinos” porque toda “commodity”, que tem preços fixados lá fora, oscila em função do humor do mercado. Em época de crise global, de mudanças climáticas que impactam dramaticamente a agricultura, até as pedras saem rolando e, portanto, era de esperar que o agronegócio balançasse bastante, assim como a mineração e outros setores que têm esse perfil dependente da exportação.
      Mas é interessante observar algumas reportagens sobre o tema porque elas apontam para todas estas crises anunciadas.
      Vejamos, por exemplo, a matéria publicada (28/01/2009) no Valor Econômico sobre a frustração dos agricultores do Centro-Oeste que, seduzidos pelo canto de sereia do biocombustível, trocaram a soja pela cana.
      Desde 2005, quando o Governo e alguns gurus de plantão começaram a festejar a “febre do etanol”, muitos produtores de Goiás e Mato Grosso resolveram apostar na cana e começaram a arrendar suas terras para os usineiros, convictos de que o setor sucroalcooleiro iria “bombar” em futuro próximo. Deu no que deu: a coisa não pegou e, como expressa bem um dos produtores que se deram mal com a troca, muita gente ficou literalmente com a cana na mão ou no pé.
      Novidade? Nenhuma. É sempre assim: o mundo das monoculturas tem essa particularidade e vive ciclos em função da maré, tipo onda vai, onda volta. Um dia você está no topo e outro no fundo do poço. Por que razão? Ora, o mercado é implacável e, quando a demanda diminui, os preços despencam. Numa situação desfavorável como a que atravessamos hoje, o balanço é negativo: os produtores  entregam a cana aos usineiros a 38 reais pela tonelada, quando os custos de produção chegam a 45. E alguém lá em Brasília chegou a chamar os usineiros de heróis do Brasil, você se lembra?
      Os produtores, pelo menos boa parte deles, ignoraram a dura realidade e a imprensa, que vive quase sempre a reboque de fontes oficiais e faz o papel de “laranja” de fontes empresariais, engrossou o coro, ajudando a criar o clima propício para o desastre que agora varre o agronegócio.
      A sabedoria indica que o melhor caminho é sempre a diversidade, mas vivemos um momento em que, também por culpa da mídia acrítica, o negócio é fazer a apologia da mente transgênica, aquilo que a indiana Vandana Shiva (esta sim uma cabeça pensante) denomina de “monoculturas da mente”. E toma papel e celulose, glifosato, minério de ferro e agrotóxico a dar com o pau, emporcalhando solo, água e ar.
      O jornalismo brasileiro, que cobre o agronegócio nas páginas de economia, anda refém de executivos de algumas grandes empresas nacionais e internacionais que promovem, cínica e hipocritamente, o lobby dos insumos, pouco preocupados com as questões sociais, ambientais e mesmo com a nossa segurança alimentar. A proposta é festejar os lucros, o “management”, as exportações realizadas à custa dos nossos recursos naturais (você sabia que o Brasil é o maior exportador de água do mundo?).
      Pouco a pouco, os coleguinhas da redação estão percebendo (mas muitos têm memória fraca e logo se esquecerão disso) de que o agronegócio, assim como o sistema financeiro, o mundo enfim, está absolutamente conectado e que não existe qualquer possibilidade de vivermos numa ilha encantada enquanto os tufões assustam o resto do planeta. Não é possível ficar pulando marolinha num universo em ebulição, com ondas acima de 5 metros de altura.
      Pouco a pouco (acho que com mais tempo nesse caso) os coleguinhas de redação também irão descobrir que o agronegócio está associado a pressões poderosas, quase insuportáveis e que produtores de agrotóxicos, de equipamentos, de sementes (um setor terrivelmente monopolizado), grandes exportadores etc farão tudo para prevalecer sobre os concorrentes, ainda que penalizando a sociedade.
      Vejamos um caso sintomático, também publicado pelo Valor Econômico na edição de 28/01/2009. Trata-se da importação do glifosato chinês, um insumo básico para a produção de agrotóxicos, e que, por sugestão (???) da Monsanto e da Nortox (brasileira), foi taxada absurdamente (em 35,8% em 2003). Na época, a imprensa especializada nem se interessou pelo problema, mas ele surgiu agora, com toda força,  porque o glifosato tem ficado caro demais e onerado os custos das lavouras. Logo, como a cabeça de autoridades (que não têm política alguma e ficam invariavelmente à mercê de empresas e ruralistas descomprometidos com o país!) pensam a curtíssimo prazo, o impasse foi criado. É um tal de sobe taxa, baixa taxa, lembrando a epopéia triste de pessoas que, desafortunadamente, moram à beira de cursos de água e que colocam todo o ano os móveis no teto das casas para salvá-los das enchentes.
      E agora, também está no Valor Econômico (26/01/2009), os EUA passaram a temer os transgênicos que vêm de fora, sob a alegação de que podem não ser seguros. Sabe  o que isso significa? Que eles querem estabelecer uma barreira protecionista para favorecer as suas próprias empresas (se você leu Monsanto, leu certinho!) e, depois de fazerem o diabo para empurrar transgênicos pro mundo inteiro, agora querem convencer o mundo de que transgênicos seguros só os seus! Se o Obama entrar nessa, a máscara vai cair e a gente vai ficar sabendo (alguém dúvida?) de que em ambiente onde o que vale é a grana tanto faz a cor da pele ou da ideologia.
     É preciso, urgentemente, aumentar a massa crítica na área do jornalismo em agronegócio porque a imprensa (e os jornalistas em particular) não podem continuar ostentando uma posição e uma cabeça que oscilam a cada estação. Está na hora de endireitar a espinha, de pensar a médio e a longo prazos para que, nessa hora, não sejam obrigados a “pagar o mico”, alardeando crises mais do que anunciadas como se fossem o último lançamento.
      A saída é simples: incorporar uma perspectiva de análise mais abrangente, menos condicionada às circunstâncias, que privilegie as relações (insofismáveis!) entre economia, meio ambiente e sociedade. Largar de vez de pensar como a maioria dos economistas e profissionais de finanças que só conseguem contemplar dividendos, produtividades (a festejada produtividade da soja transgênica é exemplo deste equívoco imenso) e lucros virtuais, como se o mundo pudesse sobreviver apenas de intenções e de discursos retumbantes.
      A realidade é dura e mais complexa do que imaginam algumas editorias. Há sempre mais do que uma posição a ser considerada e a verdade extrapola a defendida por empresários e corporações que só raciocinam com o bolso e que demitem funcionários ao primeiro sinal de poeira no horizonte. Esta mentalidade transgênica de cobrir o agronegócio só interessa a empresas monopolistas, predadoras, agrotóxicas e que despendem boa parte do seu tempo e recursos em fazer propaganda, proclamar as vantagens de seus produtos insustentáveis e a circular pelos bastidores de Brasília para fazer prevalecer os seus interesses excusos.
      Continuo indicando para os jornalistas que permanecem acreditando em “cantos de sereia” e em corporações “socialmente responsáveis” a leitura de livros como O mundo segundo a Monsanto, A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos e sobretudo, levando em conta o tema deste artigo, o livro Migrantes: trabalho e trabalhadores no Complexo Agroindustrial Canavieiro (os heróis do agronegócio brasileiro), organizado por Francisco Alves e José Roberto Novaes (publicado pela UFSCAR).
      Será importante perceber que, no final da década de 80, a média diária de cana cortada por trabalhador era de 6 toneladas e o piso salarial pago para atividades na usina, além do corte da cana, correspondia a 2,5 salários mínimos. Em 2007, a produtividade média é de 12 toneladas e o piso salarial não chega a 2 mínimos, girando em torno de 450 reais. Há trabalhadores rurais morrendo de estresse no interior de São Paulo e um montão de outros em regime de escravidão em todo o País. As condições de trabalho são demoníacas em algumas propriedades rurais e a degradação ambiental criminosa.
      Evidentemente, ninguém está aqui contra o agronegócio (ainda mais eu que sou do interior de São Paulo e nasci entre “pés de café”), mas é preciso ir devagar com o andor porque nem sempre o cheiro que vem do campo é de flores ou frutos apetitosos.
      O jornalismo em agronegócio merece uma sacudida porque, com as exceções de praxe, anda claudicando, fazendo reverência para empresários e executivos gananciosos, lustrando sapato de lobistas e vendedores de veneno (agrotóxico é veneno, não é remedinho de planta!).
     É urgente abrir a pauta, contemplar a agricultura familiar (que sustenta as nossas mesas e sacia a nossa fome) e buscar fontes não viciadas. Falando nisso, você já reparou que as pesquisas que falam sobre as vantagens dos transgênicos têm como fonte sempre a mesma empresa? E você ainda acredita nela? Você não desconfia que ela pode trabalhar para atender determinados interesses e que pode ser “pau mandado” de empresas de biotecnologia? Você ainda faz matéria sobre transgênicos apenas respaldado nos releases que vêm do CIB? Está na hora de rever os seus conceitos.
      O jornalismo em agronegócio precisa refletir mais, desconfiar mais. Eu, por exemplo, não confio em empresas que têm santo no nome. Em alguns casos, não deve ser coincidência, assim como “morris” em empresas de tabaco. Freud deve explicar, mas eu já tenho a minha versão para essa anomalia semântica.

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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