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A árvore se foi. Benditas sejam as sementes

Wilson da Costa Bueno*

      Pode parecer um chavão, mas tudo que se disser de Jair Borin será pouco para definir o que ele representou como exemplo marcante para seus familiares, alunos e amigos.
      Com ele, aprendemos muitas lições. Uma delas é de que é importante valorizar as coisas simples, como a vida do campo, a cidadezinha do interior, as amizades sinceras, as conversas descontraídas, as pescarias e os cantos dos pássaros. Mas outras 3 lições me tocaram fundo ao longo desta convivência de 30 anos.
      Jair Borin defendia, ensinava e praticava o jornalismo como atividade comprometida. Sempre disse não à objetividade e ao falso conceito de verdade em jornalismo. Entendia que o fazer jornalístico deveria incluir um posicionamento e optou sempre por aquele que o encaminhava para os segmentos menos favorecidos da população. Foi um intelectual na acepção da palavra, mas despido da arrogância comum aos que frequentam os postos de prestígio. Trabalhou na grande imprensa, mas manteve-se íntegro, não negociando com os patrões, em nenhum momento, as suas posições pessoais, filosóficas ou políticas. Colaborou com o Correio da Cidadania, voluntariamente, colocando-se à disposição do debate amplo das questões ( e dos desequilíbrios) nacionais. Foi uma dos mais importantes jornalistas voltados para a cobertura do agronegócio e sempre acreditou e defendeu a necessidade de compatibilizar o desenvolvimento da agricultura com a preservação do meio ambiente e com as demandas e expectativas de quem passa fome neste País.
      Mantinha a convicção de que os meios de comunicação de massa têm rabo preso com o poder e que o conflito capital x trabalho está presente no jogo das redações.
      Jair Borin pregava e praticava a ética, a integridade profissional, a responsabilidade social. Era intolerante com os corruptos, com os que abusam da autoridade e com aqueles que atentam contra os interesses dos miseráveis. Lutou e contribuiu para uma reforma agrária democrática, simpatizava-se com os interesses genuínos do Movimento dos Sem Terra e buscou dar voz aos desemparados, criando e mantendo jornais em favelas e paróquias.
      Jair Borin foi o amigo de todas as horas. Sempre disposto a estender a mão, a ouvir os que precisavam de consolo e apoio , privando-se muitas vezes para socorrer os outros, ainda que não fossem seus conhecidos ou amigos. Por isso, quando a ECA resolveu fazer a ele uma justa homenagem, tantas pessoas ali estiveram, dando seu depoimento comovido.
      Jair Borin é o nosso reitor de fato, tendo sido o mais votado em todos os segmentos da comunidade uspiana (alunos, professores e funcionários). Foi nosso chefe de Departamento de Jornalismo mais de uma vez e buscou dotá-lo de estrutura que garantisse uma boa formação para os futuros profissionais de imprensa. Sobretudo, inspirou estudantes e orientandos com sua dedicação, competência e profissionalismo.
      Jair Borin não é um amigo que se perde assim tão facilmente. Por isso, aqueles que o conheceram, como eu, temos com ele um compromisso: apresentá-lo às novas gerações, àqueles que não tiveram a felicidade de privar de sua amizade e ensinamentos, para que também eles se tornem seus amigos. O exemplo permanece e este é o legado de quem nasceu para compartilhar e para fazer história. A árvore se foi, mas benditas sejam as sementes que ela multiplicou por aí.

Militância múltipla

      Jair Borin era professor-titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, tendo sido por diversos mandatos chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração. Docente do curso de jornalismo desde 1971, especialista em Jornalismo Agropecuário e em Midia-criticism, coordenou os estudos de Midia-criticism da Pós Graduação da ECAUSP. Orientou 54 trabalhos de conclusão de curso, além de vários dissertações de mestrado e teses de doutorado. Teve cerca de 200 artigos sobre jornalismo e midia-criticism publicados em revistas e jornais brasileiros e internacionais.
      Foi repórter, redator e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Movimento e Folha de S. Paulo. Publicou os livros O estudo do café no Brasil, pela FGV; A apropriação do tempo e do espaço no jornalismo brasileiro; A luta pela terra, em parceria com José Gomes da Silva e outras obras. Foi o representante oficial do governo brasileiro na Conferência Mundial sobre Fome e Reforma Agrária, patrocinada pela FAO, em 1986. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo em duas gestões e presidente da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo. Apoiou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e, em todas as suas áreas de atuação, destacou-se como um incansável militante pela democracia e contra as desigualdades sociais. (WCB)

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Jair Borin, com José Eli da Veiga, coordenou evento realizado em 2001 na FEA/USP, para discutir o Brasil Rural e que reuniu mais de uma centena de de pesquisadores e jornalistas. A obra resultante está disponível para download no site do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (http://www.nead.org.br) no menu Publicações NEAD , na série Textos para discussão. É um documento atual e importante, como são todos os trabalhos editados pelo Nead

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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