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Jornalismo e o conceito cosmético de sustentabilidade

Wilson da Costa Bueno*

     A mídia brasileira tem dedicado, sobretudo após a divulgação dos recentes relatórios internacionais sobre mudanças climáticas, espaço e tempo generosos para a temática da sustentabilidade. Mas, como sempre ocorre, a qualidade da cobertura tem sido penalizada pela superficialidade com que se contempla o conceito de desenvolvimento sustentável, que está evidentemente no cerne dessa discussão.
      Na prática, as coisas sempre são mais complexas do que se postula e, por isso, o debate sobre a questão fica patinando, girando em falso, em virtude de um número significativo de imprecisões e incompletudes, certamente derivadas da falta de espírito crítico e da má intenção.
      Há dois equívocos que podem ser apontados de imediato e, dentro do espaço de que dispomos, vamos enumerá-los rapidamente.
      O primeiro deles diz respeito ao entendimento que a mídia, pautada por fontes comprometidas com determinados (e poderosos) interesses, tem do conceito de desenvolvimento, assumido muitas vezes como crescimento econômico, medido pelo aumento do PIB e outros indicadores de que se pode lançar mão a qualquer momento. Esta perspectiva restrita acaba privilegiando a vertente econômica em detrimento da sócio-cultural ou política, por exemplo. Não é por outro motivo que se fala em desenvolvimento sustentável dos negócios, da economia brasileira etc, um discurso apropriado amplamente pelos governantes e empresários que costumam enxergar pouco mais do que um palmo à frente do nariz.
      O desenvolvimento, dirão certamente os mais críticos, não se resume a esta perspectiva, que não apenas empobrece o conceito, mas o desvirtua brutalmente. Não se deve aceitar impunemente, como tem feito parcela significativa da mídia e dos jornalistas brasileiros, que se dilapide um conceito em nome de interesses excusos ou da preguiça em se precisá-lo.
      Desenvolvimento tem a ver com a superação da pobreza e da desigualdade, com a defesa intransigente da pluralidade e da diversidade, com o compromisso com os direitos humanos,  com o acesso à educação, à moradia e assim por diante. Crescimento econômico é outra coisa e, em muitos casos, representa um olhar antagônico que, no capitalismo selvagem ou  predador se antepõe à implementação de um efetivo desenvolvimento (o social, o cultural, o das liberdades de pensamento e expressão).
      O segundo equívoco significa valer-se do termo (ou melhor do conceito de sustentabilidade) como se ele fosse um adereço qualquer, como um colar ou um brinco que se troca a toda hora para combinar com o resto da roupa. Sustentabilidade, ou sustentável mais apropriadamente, não é apenas um adjetivo, daqueles que se pode trocar por outro qualquer que esteja registrado no velho e útil dicionário do Aurélio.
      A sustentabilidade tem a ver com os problemas ambientais, mas não se esgota aí, muito pelo contrário. Na verdade, quem age dessa forma assume explicitamente que o meio ambiente é algo deslocado da economia, da cultura, da sociedade, algo que se possa dominar, como as teorias neoliberais de desenvolvimento continuam apregoando. No fundo, imagina-se que se possa fazer omelete sem quebrar os ovos porque, para muita gente, dói chegar á conclusão que não há saída, se não reformamos efetivamente o modelo que aí está posto. Um modelo comprometido com o consumo desenfreado e com todo tipo de insustentabilidade explícita, como a geração estúpida de lixo (especialmente o eletrônico em nossos dias), o uso indiscriminado de agrotóxicos e a ameaça à diversidade colocada por esta mentalidade transgênica que grassa por toda parte. A insustentabilidade que se manifesta no apagão aéreo e que nos agride a todos, fruto da incompetência oficial e da ganância de empresários que não medem esforços para aumentar os lucros (que sustentam a sua visão particular e mesquinha de sustentabilidade).
      O jornalismo brasileiro precisa incorporar esta visão crítica, esta leitura atenta dos conceitos e das teorias para não ficar refém de fontes que têm como objetivo avacalhá-los.
      Com certeza, outros conceitos têm serviço também para este propósito, como o de responsabilidade social, amplamente apropriado por empresas não éticas e por veículos e jornalistas sem compromisso com coisa alguma.
      Se o jornalismo brasileiro deixasse de navegar apenas na superfície e se dispusesse a um mergulho de vez em quando conseguiria cumprir melhor o papel que dele se espera. Não ficaria chamando agrotóxico (veneno) de defensivo agrícola (remedinho para planta, como gostam de dizer os vendedores de praguicidas em geral, e que mata centenas de milhares de pessoas em todo o mundo) e se recusaria a aceitar a expressão “floresta de eucaliptos”, uma heresia cometida em nome de uma sustentabilidade de mesa de botequim.
      O desenvolvimento sustentável que se deseja, e pelo qual vale a pena lutar, não se mede pelo PIB, nem pela exportação de commodities agrícolas ou minerais; não se aplica a segmentos econômicos que predam a natureza e que insistem em praticar o discurso cínico do “marketing verde”. A sustentabilidade tem menos a ver com o bolso do que com a alma. Mas o executivo das grandes corporações e o jornalista que apenas reproduz falas e releases devem achar que isso é poesia. O cidadão sustentável, certamente, continua felizmente, gostando de ver e ouvir estrelas.

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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