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Os agrotóxicos invadem a mesa do brasileiro

Wilson da Costa Bueno*

      Se você é chegado numa saladinha (vegetais ou frutas, tanto faz) e mora numa grande cidade brasileira, cuidado. Sem saber, você está engolindo veneno, fruto da irresponsabilidade de produtores e da omissão das autoridades que, embora saibam do problema, nada tem feito para solucioná-lo.
      O alerta vem do IDEC - Instituto de Defesa do Consumidor que, apoiado em recente pesquisa da ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com dados que são mais do que preocupantes.
      A ANVISA , em seu Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), descobriu, após analisar amostras de frutas e verduras nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Pernambuco, que 81,2% delas (1.051 de um total de 1.278 amostras coletadas entre junho de 2001 e junho de 2002) continham resíduos de agrotóxicos. Mas não é só isso: mais de 22% das amostras apresentavam porcentuais de resíduos superiores aos limites máximos que a legislação brasileira permite e uma parte significativa dessas 22% incluia resíduos de agrotóxicos (pesticidas) proibidos para aquelas culturas. E ainda mais: 3 ingredientes ativos de uso não permitido no Brasil, sob qualquer forma, foram detectados (Clorpirifós Metil, Paration Etílico, Dieldrin.). Um atentado à saúde da população e um desrespeito evidente à legislação brasileira.
      Se você ficou curioso (ou melhor dizer, apavorado) e quer saber quais os produtos mais contaminados, anote aí: morangos (você já sabia , não é mesmo?), mamões, tomates, maçã, batata e banana. Mas pode estender essa lista para a maioria das frutas e verduras que você come, imaginando estar seguindo uma dieta saudável. Tá tudo contaminado.

Ninguém faz nada

      Em princípio, ninguém toma medida alguma. Embora a ANVISA tenha identificado o problema, que , aliás, tem sido apontado há muito tempo por pesquisas recorrentes em solo brasileiro, não há uma ação enérgica para coibir esse crime contra a saúde da população. Os envolvidos não são responsabilizados e, por isso, estes produtos continuam sendo vendidos nas feiras livres, supermercados, CEASAS e até mesmo em barracas, com a autorização e incentivo (campanhas) de Governos estaduais e municipais em locais públicos (praças e estradas).
      As empresas que comercializam agrotóxicos (por elas denominados eufemisticamente de defensivos agrícolas) burlam continuamente a lei e seus representantes (vendedores) agem no interior do país, prestando "assistência" aos agricultores , a maioria deles não consciente dos riscos que têm imposto aos consumidores. Como explicar que ingredientes ativos definitivamente proibidos no Brasil estejam em mãos dos agricultores (quem forneceu a eles?) e que outros estejam sendo utilizados em culturas para as quais não foram autorizadas?
      É preciso admitir que há produtores que, mesmo sabendo do grau de contaminação a que expõem os seus produtos pela pulverização inadequada, abusiva (por que não dizer criminosa?) com agrotóxicos, insistem em sua prática nociva, para obter lucros a qualquer custo. Incentiva-os a isso a displicência das autoridades que, ao que parece, especializaram-se em metodologias para analisar produtos e descobrir as provas do crime, mas não têm meios ou coragem de levar os infratores aos tribunais.
      Falta, no mínimo, uma informação adequada ao cidadão, já que o problema foi identificado, como, por exemplo, que frutas e verduras estão contaminadas e qual a sua origem, permitindo ao consumidor evitá-las, buscando fontes alternativas.

Como enfrentar o perigo

      Os consumidores, segundo orientação do IDEC, devem estar alertas e, quando possível, buscar os produtos certificados da agricultura orgânica (cuidado, porque tem gente vendendo gato por lebre aí também!) e, quando não é possível encontrá-los, tomar algumas providências importantes. Por exemplo, descascar as frutas, lavar frutas e verduras em água corrente (o melhor é colocá-las num solução de água com um pouco de vinagre - 1 litro de água para 4 colheres de vinagre - por 20 minutos e retirar as folhas externas das verduras. Além disso, fique atento a sintomas comuns de intoxicação, como dor de cabeça, vômito e diarréia e procure socorro médico, se desconfiar que eles estão associados à ingestão destes alimentos.
      Não deixe de denunciar à Secretária de Saúde ou à Vigilância Sanitária quando desconfiar de produtos contaminados e, se nada for feito, vá à imprensa e aos orgãos de defesa do consumidor. Repasse a informação aos amigos e familiares, mude de fornecedor , reclame. Se as vozes contrárias a este crime se somarem, talvez o Governo comece a ouvir. Se não fizermos nada, o Fome Zero acabará se transformando em Veneno 100.

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* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
 
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